O maior ensinamento do Evangelho é muito simples e, ao mesmo tempo, muito difícil: já que somos amados por Deus, a Quem não vemos, somos convidados a imitá-Lo amando o próximo, que vemos e podemos tocar. Enfim, juntar a teologia de Maria com a teologia de Marta, digamos assim.

São, portanto, dois aspectos a considerar, obrigatoriamente: o amor de Deus por nós e o nosso amor pelos outros.

Confesso que, neste tempo de Natal, fiquei pensando muito no primeiro aspecto, que é a razão de ser do segundo: o amor de Deus por nós, o amor de Deus por mim, criatura singular e irrepetível. Não que já não o soubesse. Sabia-o, e tive provas abundantes disto, em minha vida. Desta vez, porém, a consciência dessa realidade foi quase epifânica, como se fosse a primeira vez.

Ser amado por outro ser humano é muito bom e faz tanto bem. Até o amor de um cachorrinho já é coisa boa, admitindo que seja amor o apego que os cães sentem por nós. Se o amor das criaturas é tão benéfico, o que pensar do amor de Deus por nós?

Há, claro, uma diferença: o amor divino não o experimentamos sensorialmente. Não ouvimos de seus lábios que somos amados, como podemos ouvi-lo da namorada, da esposa, dos filhos. Sei que Ele me ama por um ato de fé da minha parte, pois fui por Ele criado, fui por Ele redimido, sou por Ele mantido no ser, e assim será por toda a eternidade.  

Seja como for, esse amor “indireto” existe, e é infinitamente maior que todos os demais, embora seja um mistério muito grande para ser plenamente apreendido por nossos cérebros de galináceos. Eu me saber amado pelo Deus onisciente, onipotente, onipresente, e que, sendo tudo isto, ainda veio ser minúsculo como eu e por mim morrer — lembrar-me disto foi, para mim, o maior presente deste Natal.

Parece que uma boa forma de retribuir esse presente, é dizer às pessoas, que nos cercam, que elas também são objeto desse Amor, e que, se lhes faltar o amor das pessoas ou dos lulus, elas não perdem muita coisa, desde que creiam que são infinitamente amadas pelo Todo Poderoso.

É certo que, em nossa época, retribuir com palavras esse dom inestimável de Deus é como falar com pedras. Ainda assim, é preciso continuar a dizer a nossa fé, dar as razões de nossa esperança, como dizia São Pedro, com os pobres meios que temos à disposição. Somos chamados a essa luta verbal, mesmo que seja uma luta sem resultados imediatos, uma luta vã, como dizia o agnóstico Drummond (“Lutar com palavras/ É a luta mais vã/. No entanto, lutamos/ Mal rompe a manhã.”). Numa época em que os católicos somos praticamente minoria, em que não faltam esforços de eliminar o caráter sagrado e transcendente do Natal, nunca foi tão urgente anunciar e propagar que somos amados pelo Autor da vida.

Esta é a principal fonte da nossa alegria, o mais eficaz remédio contra a tristeza e a depressão: não permitir que a carne, o mundo e o demônio se interponham entre nós e o Criador, criando uma barreira que dificulte chegar às almas a irradiação do amor divino.

Propus-me pessoalmente, neste Natal, abrir um parêntese de luz cristã em meio às trevas que nos cercam, deixando momentaneamente de lado fantasmas que nos assombram cotidianamente, como a “nova ordem mundial” (com tudo o que essa expressão implica), a islamização da nossa mãe Europa, o fortalecimento do comunismo na América Latina, o aumento da influência chinesa na política e na economia etc.

Essa experiência com a luz sobrenatural — que, ao fim e ao cabo, é a única verdadeira — é a recarga anual necessária de nossas baterias espirituais, para que, ao longo do próximo ano, continuemos a suportar o assédio de tantos inimigos mortíferos, entre os quais é preciso acrescentar mais um, talvez o mais perigoso de todos por estar mais próximo: a nossa própria tendência ao mal.

Essas férias de duas semanas na ilha da luz natalina, embora cercada de trevas por todos os lados, nos fazem lembrar do “único necessário”, do nosso fim último, que é a salvação das almas, as nossas e a de nossos inimigos. A feliz consumação do nosso destino é a plena comunhão com a Trindade, como ensinou Santo Tomás, e não a eliminação dos problemas deste mundo. É um imperativo cristão a luta contra o mal, contudo sem a presunção de que vamos construir aqui embaixo, no belo planetinha azul, uma utopia conservadora, a cristandade medieval plenamente restaurada e aperfeiçoada…  

Absolutamente, não. “Pobres sempre tereis entre vós”, disse certa vez Jesus. Mesmo que não faltem bons números em nossas contas bancárias, pobre sempre seremos: pobres da graça, pobres de virtudes, pobres de amor. Pobre será sempre este mundo efêmero, no sentido lato e metafísico da palavra: uma realidade sempre insuficiente, finita e sujeita à corrupção, que palmilhamos com nossos pés de barro.

Portanto, sursum corda. Corações ao alto. Se a alegria será o estado definitivo do homem ressuscitado, é preciso ser alegre desde já.