As reações ao “motu proprio” Traditionis custodes não têm sido, de certa forma, o que se poderia esperar. Sem excepção, os bispos, em cujas dioceses a Missa tradicional era celebrada, garantiram aos seus fiéis que as coisas permanecerão as mesmas e tiveram mesmo palavras de afeto e encorajamento para aqueles que se sentiram duramente atingidos pelo documento do Papa. Mesmo bispos liberais, como os cardeais de Chicago e Washington, têm falado nesse sentido. O mesmo foi expresso pela Conferência Episcopal Francesa. Os institutos católicos, cujo carisma é a celebração da tradicional Santa Missa, expressaram o seu pesar, mas também a sua vontade de obedecer, e lamentaram que todos aqueles que querem a velha liturgia sejam equiparados aos que rejeitam o Concílio Vaticano II.

As críticas mais fortes vieram de fora — dos seguidores de Monsenhor Lefebvre — e de dentro. Particularmente duras foram as palavras do Cardeal Zen, que acusou os “cavalheiros do Vaticano” de não conseguirem esperar pela morte de Bento XVI para publicar a sua obra, causando-lhe assim grande sofrimento. Ainda mais duras foram as palavras do Cardeal Müller, talvez a mais dura de todas as que foram proferidas; referindo-se ao Papa, como autor do “motu proprio”, ele diz que “em vez de apreciar o cheiro das ovelhas, o pastor aqui bate-lhes com a força do seu cajado”.

De toda a nuvem de comentários publicada nesses dias, emerge uma questão essencial. O Papa tem razão quando diz que a divisão da Igreja deve ser evitada, porque duas Igrejas não podem coexistir dentro de uma única, cada qual considerando ser a verdadeira Igreja. Ele também tem razão quando afirma — e o Cardeal Müller sublinha isto, em sua crítica fundamentada ao documento — que quem não aceitar os Concílios aprovados pelo Papa, e, portanto, o Concílio Vaticano II, não pode ser católico. Independentemente de todos os tradicionalistas rejeitarem ou não este Concílio, deve ser dito que quem o rejeitar não pode ser considerado católico, tal como quem rejeitar o Concílio de Trento ou o Concílio de Éfeso, entre outros, não pode ser considerado católico.

No entanto, com o Vaticano II aconteceu algo que não tinha acontecido antes. Tem havido interpretações tão opostas dos textos do Concílio que ninguém sabe exatamente o que significa aceitar o Concílio Vaticano II. Bento XVI tentou resolver esta questão, desde o início do seu pontificado, dizendo que o Concílio deveria ser interpretado (e posto em prática) com uma hermenêutica de continuidade em relação à Palavra de Deus e à Tradição da Igreja. Como aplicação desta continuidade, Bento XVI permitiu, sob condições, que a Missa fosse celebrada de acordo com a forma tradicional. A questão é se, ao abolir esta permissão, se está criticando a interpretação do Vaticano II como continuidade do passado.

A hermenêutica da ruptura afirma que, com o Concílio Vaticano II, deve surgir uma “nova Igreja” que não seja limitada pela Tradição e mesmo pela Palavra de Deus. Esta nova Igreja estaria em paz com o mundo, sobretudo nas questões relativas à moralidade sexual, à família e à vida. Assim, o aborto, a eutanásia, o controlo artificial da natalidade e a prática da homossexualidade seriam aceitos. Conviventes não casados, divorciados e divorciados recasados poderiam receber a comunhão. Os padres poderiam casar-se. O sacramento do casamento poderia ser recebido por casais homossexuais e, claro, o sacerdócio em todos os seus graus estaria aberto a homossexuais e mulheres, para que na nova Igreja houvesse, como já existe na Igreja Luterana, sacerdotes e bispos homossexuais e casados, sacerdotes e bispas lésbicas casados, e até — isto não é obviamente o caso dos luteranos — o Papa poderia ser uma mulher, casada com outra mulher. Isto não é ficção científica, nem exagero. É exatamente, ponto por ponto, o que a “nova Igreja” promove, afirmando basear-se não na “letra” do Concílio Vaticano II, mas no “espírito do Concílio”, que interpreta com uma hermenêutica de ruptura tudo o que vinha de antes. É verdade que não pedem tudo de uma só vez, para não alarmarem, mas é esse o objetivo que procuram.

Como o Papa diz, e com razão, duas Igrejas que se consideram as verdadeiras não podem coexistir dentro de uma Igreja. Uma Igreja que aceita o Concílio Vaticano II, mas o interpreta em continuidade com o que a Igreja tem ensinado desde Jesus Cristo, não pode coexistir com uma Igreja que se esconde atrás do Concílio para criar uma Igreja totalmente diferente. A tragédia é que temos vivido nessa coexistência impossível durante sessenta anos, o que não faz nada bem à nossa saúde. A tensão causada pelo confronto entre estas duas hermenêuticas não é enriquecedora, mas destrutiva, e os danos que estão provocando aos fiéis são imensos, para não mencionar o sofrimento de muitos sacerdotes.

A coexistência de duas Igrejas tão radicalmente diferentes dentro da mesma Igreja é uma ficção que não pode continuar. Para resumir e sintetizar: ou se está com São João Paulo II e Bento XVI em sua interpretação do Concílio em continuidade com o passado, ou então se está com a Igreja alemã.

Um dos artigos que li, nestes dias, terminava perguntando: após o golpe dado aos tradicionalistas, quem será o próximo? Não hesito em afirmar que a “nova Igreja” da ruptura não é a Igreja de Cristo, e sei que há muitos que pensam como eu, incluindo cardeais, bispos, padres e fiéis. Seremos nós os próximos?