A descristianização da Europa caminha a passos largos. Diminui cada vez mais, no velho continente, o número dos que se declaram cristãos. Templos são demolidos ou adaptados para outros usos. Os parlamentos votam leis que coíbem a expressão dos valores e princípios religiosos, em especial no terreno da moral. Símbolos religiosos são retirados de espaços públicos, quando não são alvo de atos sacrílegos da parte de militantes de conhecidas minorias.

O simbolismo do Natal é um dos mais visados. Recentemente, o governo da União Europeia fez que uma de suas comissões, a Comissão de Igualdade, enviasse sugestões a todos os Estados-membros no sentido de evitar-se, nas mensagens emitidas por entidades públicas neste final de ano, qualquer referência ao Natal como festa religiosa. O motivo aparente era que isto poderia soar desconfortável aos não-cristãos e, assim, recomendava-se o uso de uma linguagem neutra e mais “inclusiva”.

É, inegavelmente, a volta do paganismo e, com ele, o retorno e a normalização de certas práticas que a moral cristã havia abolido, como o aborto e o suicídio. Como consequência da banalização da morte e da ausência de Deus na cultura moderna, chega agora da Europa a notícia de que a Suíça — país em que o suicídio já está legalizado — autorizou, oficialmente, o uso comercial de uma recém-criada máquina de suicidar.

É isto mesmo: uma geringonça eletrônica criada para pôr fim à vida das pessoas, da maneira mais light possível. Trata-se do sofisticado Sarco-Pod, produzidos pela Exit International, uma organização sem fins lucrativos que promove a eutanásia naquele continente. A máquina possui a forma de uma cápsula, e foi projetada para acomodar em seu interior um ser humano adulto, em posição confortavelmente reclinada.  

A utilização de tão nobre serviço tem lá suas regras (afinal, a Suíça é um país civilizado). O candidato, desejoso de ir “dessa pra melhor”, antes do “embarque” deverá passar por uma entrevista e responder a uma série de perguntas, que visam garantir que ele esteja de fato bem consciente do que vai fazer. Se aprovado no teste psicológico, receberá um código de acesso e poderá enfim subir na confortável nave, que obviamente jamais sairá do lugar, embora permita ao desesperançado usuário empreender a viagem mais longa e decisiva de sua vida, sem direito a bilhete de volta.  

Como funciona a máquina da morte? A cápsula fecha-se hermeticamente e o futuro defunto só terá de acionar uma pequena alavanca, que fará o ambiente encher-se rapidamente de nitrogênio. O nitrogênio vai eliminar todo o oxigênio do interior, e o cliente da Exit International cochilará (garantem que sem dor) em apenas trinta segundos. O trânsito do aqui-e-agora ao depois-e-além será tão suave, que nem se descarta a possibilidade de o viajante garatujar, no rosto, a discreta flor de um sorriso.

O design elegante e moderno, que nada tem a ver com o aspecto funerário habitualmente associado às coisas da morte, pretende driblar o grande mistério desse que é momento mais importante da vida humana, passando ao usuário a ideia de que só vai fazer mais uma viagem: uma viagem a um novo e ignorado destino. É a ciência e a tecnologia modernas dando mais um passo no sentido de “matar a morte”, ou de, pelo menos, inventar uma morte mais civilizada, à altura do homem emancipado de nossos dias, que decidiu viver além do bem e do mal, e do mesmo modo morrer.

Na Suíça, onde o suicídio assistido é legal, põem fim à própria vida cerca de 1300 pessoas por ano, cujos distúrbios comportamentais as pílulas psiquiátricas e os cuidados psicoterapêuticos não conseguem resolver. Com a chegada dos Sarco-Pods e sua admirável solução tecnológica, prometendo a mais tranquila, a mais doce, a mais rápida e a mais eficiente das mortes, acredita-se que esse número possa aumentar bastante. Tomara que não.