Após o impacto causado pelo livro de Monsenhor Gänswein, secretário do Papa Bento XVI, outro livro foi publicado esta semana, desta vez assinado pelo próprio Pontífice, que, por sua vontade, só seria publicado após a sua morte.

Contém uma colecção de artigos que ele escreveu após a sua demissão. O seu título está ligado ao primeiro dos livros publicados pelo jovem teólogo Joseph Ratzinger. Enquanto este se intitulava Introdução ao Cristianismo, o recém-lançado intitula-se O que é o Cristianismo? Com este trabalho póstumo, Ratzinger-Bento XVI põe fim ao seu trabalho como teólogo, e o faz não só com a autoridade de quem governou a Igreja durante oito anos, mas também com a sabedoria de quem viveu muito, viu muito e muito sofreu.

Há muitas coisas neste livro que terão de ser desembrulhadas, depois de uma leitura sem pressa; a primeira delas é a razão pela qual o Papa Emérito não queria que visse a luz senão depois de sua morte. A razão pode ter sido um elementar sentido de prudência, de modo a não interferir no governo do seu sucessor. No entanto, o editor do livro, Elio Guerriero, a pessoa a quem Bento XVI confiou os seus escritos para os organizar visando a publicação, diz na introdução que a razão era, acima de tudo, algo além disto.

Guerriero diz que, depois do livro publicado pelo Cardeal Robert Sarah — Do profundo de nosso coração —, que incluía um artigo do Papa Emérito sobre as razões para manter o celibato sacerdotal, surgiu um grande escândalo — especialmente na Alemanha — e Bento XVI foi acusado de ter bloqueado a decisão, já tomada pelo Papa Francisco, de permitir a homens casados o acesso ao sacerdócio, que tinha sido um dos pedidos do Sínodo da Amazónia. Guerriero afirma que, na carta em que Bento XVI o encarregou de editar este livro, o Papa Emérito disse: “Pela minha parte, já não quero publicar nada. A fúria dos círculos que me são hostis, na Alemanha, é tão forte que o aparecimento de qualquer palavra minha provoca neles, imediatamente, um tumulto assassino. Desejo poupar-me, a mim próprio e ao cristianismo”.

A palavra italiana usada por Bento é “vociare”, que pode ser traduzida como “vozerio”, “algaravia”, “clamor” ou mesmo “escândalo”, mas cujo sentido é óbvio. O que é significativo, porém, é o que o acompanha o adjetivo “assassino”. Um “vozerio assassino”, um “clamor assassino” — são expressões que refletem o que está no coração daqueles que o produzem: um ódio assassino.

O Papa Emérito não está exagerando, quando escreve isto. Um ódio assassino perseguiu-o durante toda a sua vida, desde que rompeu com os círculos liberais que tinham liderado o Vaticano II. Foi o ódio assassino contra ele que o perseguiu enquanto esteve na Congregação para a Doutrina da Fé e, sobretudo, durante os seus oito anos como Pontífice. Foi esse ódio assassino que levou os principais meios de comunicação do mundo a exigir a sua demissão, acusando-o de ser o protetor dos padres pedófilos. Foi esse ódio assassino que ainda o manteve sob acusação perante um tribunal alemão, que, mesmo após a sua morte, decidiu continuar o processo contra ele através do seu sucessor legal.

O objetivo está claro: manchar o seu nome para que o seu trabalho seja totalmente desacreditado. Pois quem daria ouvidos a alguém que foi condenado por ser protetor de pedófilos?

Quanto sofreu esse homem sábio, humilde e bom! Sem conhecer a prisão, tal como o Cardeal Pell, foi perseguido quase toda a sua vida por ser fiel a Jesus Cristo. Ele conseguiu fazer seu o Salmo 129: “Como me perseguiram desde a minha juventude! Mas não me puderam vencer.” Ele foi um confessor da fé que chegou na fronteira do martírio. Mas quanta perseguição, e até ódio, não sofrem tantos fiéis pelo simples fato de quererem comungar na boca, de quererem a Missa no rito antigo ou de continuarem a acreditar no que Deus ensina através da sua Palavra e Tradição? Quantos sacerdotes e fiéis não sofrem às mãos dos seus próprios irmãos?

Contudo, há outra lição a ser tirada deste texto chocante. Devemos ter muito cuidado para não responder com ódio ao ódio que tinham por Bento XVI aqueles que o fizeram sofrer tanto. Não podemos reagir ao mal com o mal. Cristo, e a longa linhagem de mártires, morreram sempre perdoando. A Igreja está dividida e o cisma real existe há muito tempo, mas se chegar o dia trágico em que esse cisma se torne jurídico, tudo deve ser feito para tornar esse divórcio amigável, para bem dos filhos, para bem do bom e simples povo de Deus.

Papa Francisco não é inimigo do Papa Bento — como este reconhece em seu livro —, e eu não gostaria que uma obra póstuma do primeiro fosse publicada, um dia, em que ele também dissesse que cada palavra sua teria desencadeado um vozerio assassino.