[Extrato de uma obra inédita de Bento XVI, Que coisa é o cristianismo? Quase um testamento espiritual, que a editora italiana Mondadori lançará ainda neste mês].

O estado moderno, no mundo ocidental, por um lado se vê como um grande poder de tolerância que rompe com as tradições insensatas e “primitivas” (pre-racionais) de todas as religiões. Além disso, com sua manipulação radical do homem e a deformação dos sexos pela ideologia de gênero, ele se opõe particularmente ao cristianismo. Esta pretensão ditatorial de sempre ter razão, baseando-se numa aparente racionalidade, exige o abandono da antropologia cristã e do estilo de vida considerado “primitivo” que dela decorre.

A intolerância desta aparente modernidade para com a fé cristã ainda não se transformou em perseguição aberta, mas se apresenta de forma cada vez mais autoritária, visando obter, através da correspondente legislação, a extinção do que é essencialmente cristão.

(…) o cristianismo se compreende essencialmente como verdade e é nisso que baseia sua pretensão de universalidade. Mas é precisamente aqui que entra a atual crítica ao cristianismo, que vê a sua reivindicação da verdade como intrinsecamente intolerante. Verdade e tolerância parecem estar em contradição. A intolerância do cristianismo estaria intimamente ligada à sua pretensão de verdade. Essa concepção é sustentada pela suspeita de que a verdade seria perigosa em si mesma. É por isso que a tendência fundamental da modernidade se orienta cada vez mais claramente para uma forma de cultura independente da verdade.

Na cultura pós-moderna – que faz do homem o criador de si mesmo e contesta o dado original da criação – há um desejo de recriar o mundo contra a verdade. Já vimos acima como essa mesma atitude leva necessariamente à intolerância.

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