A esquerda, seja ela marxista ou liberal, esteja no governo ou não, é uma grande vitoriosa nas últimas décadas. É preciso admiti-lo. A suas conquistas, âmbito da cultura, têm sido permanentes. Ela sabe que a verdadeira luta se dá na arena da cultura: quem obtiver hegemonia ali, leva o troféu. Desde Antonio Gramsci, a esquerda sabe que quem dominar a cultura dominará o resto. A cultura, para eles, é em geral uma ferramenta com destinação única: a conquista do poder político.

É para o mundo da cultura, portanto, que o antiesquerdismo cristão deve dirigir o seu esforço “contracultural” (para usar um termo caro à esquerda dos anos sessenta). Cultura, para um antiesquerdista cristão, será sempre algo envolto numa aura de transcendência. Não é mero caminho para atingir fins históricos, mas meta-históricos. É produto humano e, ao mesmo tempo, produtor de humanidade. Começa no tempo, mas visa a eternidade.

Assim, mais importante do que imaginar como será o novo governo de esquerda no Brasil — que será provavelmente semelhante às experiências anteriores, com as adaptações necessárias à nova circunstância —, é verificar como os antiesquerdistas cristãos pretendem continuar tratando o problema cultural: a educação, a ciência, a filosofia, o jornalismo, a religião, as artes.

A energia antiesquerdista não deve ser desperdiçada numa luta meramente partidária, pois a atividade política em sentido estrito depende visceralmente do universo maior da vida cultural, que já é ação política em sentido lato.

As duas coisas — vida cultural e ação política — podem caminhar, ao mesmo tempo, em direções divergentes e até opostas. Um exemplo entre nós é o Estado Novo getulino, julgado pela melhor historiografia como uma experiência política negativa e facistóide, e que coexistia na mesma faixa de tempo com a principal floração cultural que teve o Brasil no século XX.

O principal esforço, que é de agora e será para sempre, é continuar a produção e propagação da verdadeira cultura, que será por natureza anti-esquerdista, onde e da maneira como for possível.

E mesmo que nossa inteligência nos advirta que, no atual estado das coisas, as facilidades nesse terreno são bem maiores para as esquerdas, continuará o antiesquerdista cristão fazendo a tarefa de casa, trazendo de volta aquela concepção de cultura que sempre foi a dominante no mundo ocidental: uma atividade humana que jamais perde sua dimensão transcendente, consciente de sua finalidade meta-histórica.

Produto humano, mas inspirado por Deus e destinado a aproximar o homem de seu fim último, que é o próprio Deus.

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