A democracia, legítima em si, pode degenerar em democratismo, uma espécie de religião que confunde a ordem da graça e a da natureza, ou que tende a reduzir a verdade sobrenatural do Evangelho a uma concepção social da ordem humana, transformando a caridade divina em filantropia, humanitarismo e liberalismo.

A Igreja pode então intervir em virtude mesmo do seu magistério. Ela não pode olvidar o princípio: corruptio optimi pessima; a pior das corrupções é a que ataca o que há de melhor em nós, a mais elevada das virtudes sobrenaturais, que é a alma de todas as outras [a caridade].

Se não há nada neste mundo melhor do que a verdadeira caridade, que ama a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, não há nada pior do que a falsa, que subverte a própria ordem do amor, fazendo-nos esquecer a bondade infinita de Deus e os seus direitos imprescritíveis, para nos falar sobretudo dos direitos dos homens, de igualdade, de liberdade e de fraternidade.

Confunde-se assim o objeto formal de uma virtude essencialmente sobrenatural com um sentimento em que a inveja, muitas vezes, entra com uma grande parte. Tal é a essência da democracia-religião, que falseia completamente a noção da virtude da caridade e ao mesmo tempo da virtude conexa da justiça.

Querer encontrar aí o espírito do Evangelho, seria iluminismo.

Para compreendê-lo bem, basta aplicar aqui a regra principal do discernimento dos espíritos: “A árvore se julga pelos seus frutos”, e os produzidos pelas obras de Rousseau não são os frutos do Evangelho.

(Publicado na revista Vie spirituelle, março de 1927)

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