Num dia desses, dona Gracieta ouviu pelo youtube um político do partido vitorioso nas últimas eleições, em momento de rara inspiração poética, dizer uma frase genial: a principal tarefa deles, agora, seria destruir a tríplice aliança do terço, das armas e do capital. Numa breve fórmula, sintetizou admiravelmente a natureza do conservadorismo ocidental: a livre iniciativa controlada pela moral cristã e o guarda da esquina. A literatura brasileira, tão sem graça ultimamente, renascia de onde menos se esperava.

Dona Gracieta, no entanto, ainda não sabia se torcia ou não por uma entrada em cena mais ostensiva das Forças Armadas. Um puxão de orelhas em moleque arteiro geralmente resolvia; o pior era que os moleques arteiros, hoje em dia, estão excessivamente blindados pelos conselhos tutelares da aldeia global…

Em 1964 dona Gracieta tinha trinta e seis anos. A atmosfera mundial de Guerra Fria favorecia a intervenção militar contra a ameaça comunista no Brasil, com muito apoio aqui dentro e lá fora. Na época, ela e o marido deram graças a Deus pelo que fizeram os homens de verde (gratidão que infelizmente durou pouco, quando perceberam que eles gostaram do trono real e queriam permanecer reinando).

Hoje, ela ouvia liberais dizerem que seria um verdadeiro suicídio político uma intervenção militar, pior até (e benzia-se ao ouvi-lo) que a volta dos comunistas ao governo. E tudo em nome do deus Mercado, pois dessa divindade dependiam tanto a riqueza dos ricos como o feijão dos pobres. “O mundo todo cairia em cima do Brasil” — diziam eles. Era a forma mais cínica de pragmatismo: se os fins eram razoáveis, não importavam os meios.

Havia também os que, em nome da legalidade, rechaçavam qualquer espécie de intervenção manu militari. As leis, criadas e votadas pela vontade dos homens, eram sagradas, ainda quando contrariavam e feriam de morte a verdade. Devem ser respeitadas, mesmo se injustas. Num ponto, porém, esses legalistas tinham razão: o Senado tinha poderes para conter os ministros da suprema corte que exorbitavam de suas atribuições e tinham instalado aquela ignóbil ditadurinha dentro de uma democracia ainda aparentemente funcionando.

Quanto às leis injustas, já eram tantas por aí! Dona Gracieta pensava em algumas delas, a começar das que contrariavam a vontade de Deus — fosse porque Deus não existisse ou porque fosse um Deus sujeito a revisões —, como a do divórcio, do aborto e do casamento gay. Lembrava-se de algumas leis que contrariavam o bom senso — um dos dons mais preciosos que Deus nos deu —, como a das cotas raciais nas escolas e no serviço público, que zombava do mérito e do esforço pessoal, ou a das cotas femininas na política, que não levava em conta as tendências naturais de cada sexo para determinadas funções. Mas havia outras, muitas outras.

Uma coisa que dona Gracieta nunca conseguiu entender era a legalização, nas democracias, de partidos políticos cujos programas ameaçavam a própria democracia, coisa que ela achava muito parecida à criação de cobras (que depois não viessem reclamar das picadas…). Eram tão liberais essas democracias, que até estavam dispostas a sacrificar a deusa liberdade, caso a vontade da maioria — divindade um ponto acima — decidisse pela supressão da liberdade.

Como sempre acontecia, quando não soubesse que decisão tomar ou para que lado torcer — no caso, as armas ou o capital —, ela tirou o rosário do aparador e começou a rezar o terço. Antes de qualquer aliança com criaturas deste mundo, tratava ela de renovar a aliança de sua alma com o Criador.  

Ninguém de bom senso (raça infelizmente condenada ao extermínio) podia dizer que dona Gracieta estivesse errada.

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