A ressurreição de Jesus é o fundamento da fé cristã. Traduzindo isto em termos existenciais, devo dizer que é o fundamento da minha fé pessoal, ainda que seja ela muitíssimo menor que uma semente de mostarda. Sei que estarei sempre, neste mundo, a anos-luz de poder mandar o meu pé de amora sair do quintal e transplantar-se com sucesso no mar. Ou ordenar que aquela distante montanha, que separa meu estado e estado de Minas Gerais, chegue mais perto da minha cidade sem montanhas.

Minha fé é pequena demais. Sem minha mínima fé, contudo, eu seria o mais desgraçado dos homens.

Como a ressurreição do Cristo aconteceu de fato, e foi um acontecimento histórico presenciado por mais de quinhentas pessoas idôneas, devidamente atestado por escrito pelos primeiros apóstolos, posso dizer em alto e bom som, solenemente:

— Sou um sujeito feliz. Salvei-me da desgraça do ateísmo.

E tudo isto por haver tido a graça de crer no testemunho que eles deixaram. O mínimo que posso fazer, para demonstrar gratidão por essa imerecida fé que Deus me deu — e que durante tanto tempo menosprezei —, é brigar contra as minhas piores tendências, seguindo em frente no caminho que me leva à região oposta.

É um caminho difícil. É uma ladeira pedregosa. “Tinha uma pedra no meio do caminho”, diz um poema famoso do poeta Drummond. O caminho da virtude tem não uma, mas muitas pedras, no mínimo sete, que é o número dos pecados capitais. Na verdade, são setenta vezes sete, pois cada uma daquelas pedras fundamentais do erro tem, por sua vez, uma prole bastante numerosa. E muitas são pedras enormes, dessas que é preciso escalar com dificuldade para passar além.

Há salmos que louvam a beleza e a sabedoria da palavra de Deus. De fato, é belo tudo aquilo que Deus ensinou. Nada há de mais belo do que os ensinamentos de Jesus, nos Evangelhos. É coisa que a mente humana pode (e deve) tranquilamente admitir. No entanto, tal beleza não é algo para se admirar de longe, como à noite admiramos as estrelas no céu. Não, não. É algo para ser admirado com os olhos e carregado nos ombros, vivido na própria pele. Aquilo que, no plano mental, era só beleza platonicamente admirável, é osso duro de roer quando transplantado para a experiência pessoal. Não há ponte mais difícil de transitar do que esta que, de um lado, se apoia na luminosa margem da palavra de Deus e busca concretizar-se na margem oposta de nossa miserável vida pessoal.

Digamos logo, sem mais delongas: mais que um caminho difícil, mais que uma ladeira íngreme, é uma escarpa tortuosa. A tortuosa escarpa das virtudes: acidente geográfico ao qual é inevitavelmente conduzida a pessoa que crê na ressurreição de Cristo. A cruz de Cristo é o pressuposto de Sua ressurreição. A ressurreição de Cristo me impele indeclinavelmente à minha cruz pessoal, pressuposto sine qua non da ressurreição que espero, um dia, para esse meu pobre corpo mortal que a engrenagem dos pecados condenou à pulverização.

Ainda assim, mesmo com esta fezinha menor que um grão de areia, sei que não levo vantagem alguma em barganhar (“breganhar”, como se dizia antigamente aqui na divisa com Minas Gerais) esse caminho tão incômodo pela outra estrada, bem pavimentada e de bom asfalto, com os melhores postos e restaurantes à margem, sempre em suave declive, mas que leva inevitavelmente ao abismo sem volta.

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