[Gustavo Corção, em sua obra O século do nada, traduz uma passagem de um livro de Jacques Maritain escrito em 1922, intitulado Antimoderno, que revela o que pensava o filosofo tomista francês do comunismo, antes de se deixar seduzir por algumas ideias de esquerda a partir da década de 30].

O que a história, “julgamento do mundo”, mais severamente denunciará no comunismo não será certamente sua falta de ideal; é, ao contrário, precisamente seu ideal, isto é, o princípio espiritual que o comanda.

A lembrança dos crimes cometidos pode-se apagar, e passar depressa (…). Um regime fundamentado sobre a violação do direito natural, depois de algumas experiências devoradoras de carne humana, pode atenuar-se e, na continuação dos dias, pela necessidade de viver, pode renegar na prática os dogmas que invoca em teoria. Mas o princípio espiritual, que desempenha a função de forma animadora, este só se atenua ou se perde quando desaparece.

Deste ponto de vista, parece claro que as forças de destruição que ameaçam a atual ordem social, simbolizadas nos termos “bolchevismo” e “ditadura do proletariado”, são uma forma nova e mais virulenta (a única, a bem dizer, que ainda é virulenta) do velho fermento da Revolução anticristã.

Dizem-nos que os comunistas russos, continuando embora a proclamar que a religião é o ópio do povo, já não perseguem crenças religiosas. Acredito que no momento estejam ocupados em tarefas mais urgentes. Mas o esforço deles é anticristão, essencialmente, no seu próprio princípio.

Com uma decoração ideológica capaz de comover ao mesmo tempo os sete pecados mortais e as transviadas generosidades, é sempre um esforço inteligente, o mais ativo que até hoje já se viu no mundo, para estabelecer praticamente a humanidade no ateísmo, instaurando realmente a cidade sem Deus, sim, uma cidade, uma civilização que, enquanto tal, ignore de modo absoluto qualquer outro fim que não seja uma perfeição humana exclusivamente terrestre e faça do Homem e da Ciência humana, segundo a grande ideia hegelianizante de Karl Marx, o Senhor todo-poderoso da Humanidade. (Trad. de Gustavo Corção)

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