[História da passagem do padre paulistano Bento José Pereira pela cidade paulista de Batatais, há duzentos anos, e as encrencas que arranjou com dois fazendeiros do lugar. O capítulo anterior pode ser lido aqui].

UMA VIÚVA PIEDOSA. Padre Bento tinha vindo de tão longe, e estava ali naquela recém-criada freguesia do Bom Jesus, principalmente para apurar aquele fato estranho, envolvendo três fazendeiros vizinhos: Manuel Bernardes do Nascimento, da fazenda dos Batatais; Alferes José Dias, da Paciência; e dona Elena Martins, da Prata.

Manuel Bernardes e o Alferes podiam esperar um pouco: convinha que a primeira fazenda a visitar fosse a da Prata, da qual saiu o terreno em que foi erguida a Casa de Oração e o próprio povoado. A atual proprietária, dona Elena Martins, era viúva de Manuel Guimarães, que a deixou no mundo com oito filhos e um engenho de cana permanentemente a girar na fazenda, do nascente ao poente.

Para ouvir a verdade da própria boca de dona Elena e seus filhos, padre Bento para lá se dirigiu a cavalo naquela manhã de março, um mês depois de sua chegada. Foi sozinho, sem o escravo Manuel que, no entanto, tinha combinado em seu nome a visita. A sede não ficava longe do arraial e, já na curva da gameleira, muito antes da cerca de bambu, tinha ouvido o forte urro do engenho: a moenda cantando como um carro-de-bois.

Em seguida viu, num canto do terreirão de chão batido e vermelho, um preto-candeeiro no comando das três juntas, tocando os bois, lentamente, no interminável e monótono círculo.  Adocicando o ar fresco da manhã, subia de um pequeno rancho, ao lado do engenho, o cheiro do caldo de cana cozinhando. Viu ainda, com o balaio cheio de roupas na cabeça, uma negra que descia até o monjolo, ao fundo da casa-grande.

Padre Bento subiu os quatro degraus do pequeno alpendre, acompanhando uma crioula já velha, mas de andar ainda firme e dentes perfeitos, que veio recebê-lo em nome da “sinhá”. Os três filhos mais velhos da casa, quando o padre entrou na sala, se levantaram súbito do banco — um grande banco, que ia de uma parede à outra, liso e esbranquiçado como o assoalho, que as escravas areavam com cinza.

Dona Elena se ajoelhou e beijou a mão do vigário:

— Sua bênção, padre.

— Deus lhe abençoe, filha.

Reconheceu o rosto pálido e cansado da viúva. Não devia passar dos quarenta anos, apesar da cabeleira já grisalha apanhada algo displicentemente atrás da cabeça, onde se via uma comprida e espessa agulha. A boca, já quase sem dentes, falava baixinho, o que obrigou padre Bento a se aproximar da interlocutora mais que o costumeiro.

— Bom dia, filhos — dirigiu-se aos três rapazes, que continuavam de pé e responderam timidamente.

A fazendeira indicou ao padre a única cadeira da sala — uma cadeira de braços, escura e pesada, feita de jacarandá — e foi sentar-se no comprido banco ao lado dos filhos. Padre Bento elogiou a estrada bem cuidada, perguntou sobre o engenho e a produção de rapadura. Falou da freguesia, elogiou seu antecessor, mencionou problemas do arraial. Dona Elena era de pouca conversa e quase nada ajuntou às palavras do vigário. Os filhos também não eram de muita prosa e preferiam ouvir.

— Mas o que me traz aqui é principalmente outra coisa, dona Elena — e foi direto ao assunto: — A construção da nossa pequena matriz.

Os rapazes se entreolharam. A fazendeira, mãos sobre os joelhos, olhava-o com os olhos lassos.

— Eu já conheço a história, dona Elena ­— insistiu o padre. — Não parece ser segredo para ninguém.

— Tudo já passou, senhor vigário — disse ela. — Deus quis assim.

Padre Bento voltou-se para os rapazes:

— Vocês deram logo pelas obras?

— Quando tomamos ciência do fato — disse o que parecia ser o mais velho deles —, vendo aqueles esteios da capela fincados em nossas terras, cobertos de palha…

— … e já com a imagem do Senhor Bom Jesus lá dentro — ajuntou outro. — Uma pequena imagem que pertencia a dona Liberata, mulher do Bernardes.

— … quisemos botar tudo por terra. Mas nossa mãe nos impediu.

Dona Elena explicou com mansidão: 

— Já que era obra destinada a dar culto ao Senhor Bom Jesus, e de qualquer maneira teria que ficar em algum lugar, que ficasse então em nossas terras.

— Mesmo que tivesse de doar uma parte delas à freguesia? — perguntou-lhe padre Bento.

— Deus sabe o que faz, senhor vigário.

Estava confirmado o fato: foi assim que os dois fazendeiros vizinhos, com seus arranjos, maquinações e desculpas, conseguiram que a vizinha fizesse a doação do terreno. Como se faltasse algo importante a dizer, o irmão mais velho completou:

— Se foram eles que deram início à capela, não é certo dizer, como dizem eles, que o fizeram à sua custa. Depois todos foram chamados a colaborar, e colaboraram.

Era suficiente. Padre Bento voltou a assuntos mais gerais e logo se despediu deles. Quando passou pelo engenho, o preto-candeeiro trocava os bois das três juntas, serviço que interrompeu para prestar reverência ao senhor vigário, que o abençoou do alto do tordilho.