Os poetas são intermediários entre Deus e os homens? É o que pensava o filósofo Heidegger, ex-católico.

Diz-se que o esoterismo escrito de Heidegger, verdadeiro suplício à leitura, nada tinha a ver com suas aulas, como testemunharam Karl Jaspers, Ortega y Gasset e a própria Hanna Arendt, que teria tido acesso a um Heidegger em versão mais íntima.

Acredito que seja possível, no entanto, aproveitar algo do que disse Heidegger sobre a poesia. Segundo sua interpretação do poeta alemão Hölderlin, a poesia é a mais inocente e a mais perigosa das ocupações humanas.

É inocente (explica o filósofo no ensaio “Hölderlin e a essência da poesia”), ou presumivelmente inocente, pois o poeta vive longe do mundo prático.

Como, porém, é um distanciamento necessário para que ele possa enxergar o mundo em profundidade, aqui já começa a morar o perigo, pois a linguagem, se também serve para o leva-e-traz de informações, é a principal via de acesso aos abismos da consciência humana.

Poeta é o indivíduo que arrisca a tomar, nas próprias mãos, os relâmpagos de Deus, transformá-los em canção e distribuí-los aos outros homens. Situando-se numa região intermediária, mais ou menos fora do mundo, colabora na salvação das coisas permanentes diluídas nas contingentes. No passado, segundo Heidegger, esteve entre os deuses e o povo, como criador de mitos. Hoje, está entre a morte de Deus e o advento de novos e falsos deuses.

Uma época sem Deus é uma época de indigência, mergulhada em niilismo. Qual o risco que o poeta correria, numa época dessas? Transformar-se num erradio do espírito, tratado como um bêbado, um louco, um delirante. Mas é ele, o poeta, quem nos tempos de indigência pode salvar as coisas essenciais, guardando-as (ou com elas preparando a volta da cristandade). Só um deus pode nos salvar, dizia Heidegger.

Só Deus pode nos salvar, podemos corrigimo-lo nós; o Deus cristão. E se o poeta, em tempos de indigência, preserva as coisas essenciais, é para que elas possam preparar a volta da cristandade, que é o único modo de ser social mais próximo da vontade de Deus.

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Quando tudo, hoje em dia, favorece a comunicação fácil e linear — palavras caminhando sempre em linha reta —, rareiam os que ainda se interessam pela conversa “bêbada” da poesia.

Creio que um dos fatores deste repúdio está em que o poeta não se preocupa com a felicidade humana conforme a concebe o homem estritamente prático, que a reduz a “qualidade de vida”. Já ninguém tem tempo de ouvir, em meio a tantas seduções imediatistas, o poeta alertar sobre a ameaça de caos que sempre ronda a ordem provisória deste mundo (mundo que, desde Adão, vive gemendo como que em dores de parto, como advertia São Paulo).

O grande poeta é um desmancha-prazeres, que não se cansa de advertir contra a mais perigosa das tentações: o perigo de desejar, ainda para este mundo, uma ordem que só poderia ser atingida em outro mundo, sobrenatural ou imaginário.

Pode ser que, um dia, ninguém mais queira escrever contos ou romances, diante de novos e mais atraentes meios de transporte ficcional. Contudo, sempre haverá alguém perscrutando o mistério escondido nas palavras, que guarda em si o próprio mistério da criação e é a fonte eterna da poesia de todos os tempos e lugares — poesia que não é e nem nunca foi apenas um gênero literário, mas algo que se confunde com a própria natureza humana em sua necessidade de comunicar-se com a divindade. O Verbo estava no começo e para sempre acompanhará o homem.

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Escreveu um psiquiatra, certa vez, que o indivíduo depressivo nunca está onde devia estar: ou se encontra muito perto, ou demasiado longe da realidade. Ora é afetado demais pelas coisas, ora lida com elas com extrema indiferença. Para evitar esse defeito ótico, o poeta criou um método sábio: só transformar os relâmpagos de Deus em poemas, quando estiver recolhido naquela tranquilidade emocional a que se referia o poeta Wordsworth. Ou seja, depois que eles, os relâmpagos, já esfriaram suficientemente em suas mãos.

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Se os poetas são, de algum modo, intermediários entre Deus e os homens (como também o são, de forma ainda mais intensa, os santos e os anjos), parece que também são mediadores entre as crianças e os adultos.

Nossa época exilou a poesia? “Exilada, ainda será mais bela. As crianças a recolherão no espírito e ela ressurgirá mais límpida”, escreveu certa vez o poeta mineiro Emílio Moura. A criança, e sua eventual sobrevivência no adulto, é responsável pela permanência da poesia entre nós, mesmo nos momentos mais hostis da História.

Quando os conceitos racionais já não resolverem mais nada, o homem sabe que poderá contar com a poesia, adormecida quase sempre, mas continuamente viva no subsolo do espírito; acompanhada da beleza e da liberdade, ela é eterna, subsistindo além da cegueira e das atrocidades humanas.

Sempre haverá crianças que esquecerão de amadurecer. “As horas passam, os homens caem, a poesia fica” — qual uma voz e uma luz nas noites do mundo. É o que garante a voz solene do “exilado” Emílio Moura, no belo poema “Permanência da poesia”.