[Faz cem anos que Chesterton se converteu à Igreja Católica: foi no dia 30 de julho de 1922. Em sua Autobiografia, conta por que se converteu…].  

“Quando as pessoas me perguntam, qualquer pessoa: ‘Por que você entrou para Igreja Católica?’, a resposta essencial e imediata, embora em parte seja uma resposta elíptica, é: ‘Para me livrar dos meus pecados’.

Isso é confirmado pela lógica, que a muitos parece estarrecedora, pela qual a Igreja deduz que o pecado confessado e do qual se tenha arrependido adequadamente está de fato abolido, e que o pecador recomeça de novo como se nunca tivesse pecado.

E isso me levou bruscamente àquelas visões ou fantasias com que lidei no capítulo sobre a minha infância. Ali falei da indescritível e indestrutível certeza da alma de que aqueles primeiros anos de inocência eram o começo de algo digno, talvez algo mais digno que qualquer das coisas que se seguiriam. Falei sobre a estranha luz do dia, que era alguma coisa mais que a simples luz do dia, a qual ainda parece reluzir em minha memória naquelas íngremes ruas que desciam de Campden Hill, de onde se podia ver o Crystal Palace a distância. Bem, quando um católico volta da Confissão ele realmente, por definição, caminha mais uma vez naquela aurora de seu próprio começo e olha com novos olhos, para além do mundo, um Crystal Palace que é realmente feito de cristal.

Ele acredita que naquele nicho escuro, naquele breve ritual, Deus realmente o refez à Sua imagem e semelhança. Ele agora é um novo experimento do Criador. Ele é um novo experimento tanto quanto o era quando tinha apenas cinco anos de idade. Ele está, como eu disse, diante da alva luz no digno começo da vida de um homem. O acúmulo de tempo não pode mais aterrorizá-lo. Ele pode estar grisalho e artrítico; mas está apenas cinco minutos mais velho.

(…) o Sacramento da Penitência dá uma nova vida e reconcilia o homem com toda a vida, mas não o faz como fazem os pregadores da felicidade, sejam eles otimistas, hedonistas ou pagãos. O dom é dado por um determinado preço e está condicionado à confissão. Em outras palavras, o nome do preço é Verdade, que também pode ser chamada de Realidade; mas se trata de encarar a realidade acerca de si mesmo. Quando o processo é aplicado apenas a outras pessoa ele se chama Realismo.”

(Chesterton. Autobiografia. Trad. de Ronald Robson. Campinas, Ecclesiae, 2012).