A vida eterna consiste na Visão de Deus, conforme aquilo da Escritura (Jo 17, 3): “A vida eterna porém consiste em que eles conheçam por um só verdadeiro Deus”, etc.

Logo, se todos veem igualmente a essência de Deus, na vida eterna, todos serão iguais. Ora, o Apóstolo diz o contrário (1 Cor 15, 41): “Há diferença, de estrela a estrela, na claridade”.

Dos que veem a essência de Deus, uns a veem mais perfeitamente que outros, o que não se dá porque haja em uns semelhança de Deus mais perfeita que em outros; pois essa visão não se há-de realizar por nenhuma semelhança, como demonstramos; mas, sim, porque o intelecto de uns terá maior virtude ou faculdade para ver a Deus que o de outros.

Ora, a faculdade de ver a Deus não é própria ao intelecto criado, pela sua natureza mesma, mas pelo lume da glória, que o constitui numa como deiformidade, conforme resulta do que já foi visto (a. 5).

Por onde, o intelecto que mais participar do lume da glória mais perfeitamente verá a Deus.

Ora, desse lume mais participa quem mais caridade tem, porque onde há maior caridade há mais desejo; e este torna, de certo modo, quem deseja, apto e preparado para receber o desejado.

Logo, quem mais caridade tiver mais perfeitamente verá a Deus e mais feliz será.

(Santo Tomás de Aquino. Suma teológica. Vol 1, 1ª Pars. Trad. de Alexandre Correia. Campinas, Ecclesiae, 2020)