Dizem que não há nada de novo debaixo do sol e que o que é experimentado, num determinado momento da História, já foi de alguma forma experimentado antes. Há sempre diferenças, claro, mas são mais em termos dos meios para a sua aplicação do que nos fins a que se pretende chegar. Refiro-me à atual “cultura do cancelamento”, que procura reescrever a história e apagar todos os vestígios de qualquer coisa diferente do que é agora considerado politicamente correto.

Os romanos praticaram a damnatio memoriae, que era algo muito semelhante à prática atual e que significa, literalmente, “condenação da memória”. Quando o Senado a decretava, geralmente por ordem do novo imperador, procediam à remoção de tudo o que fizesse lembrar do condenado, que era normalmente um imperador anterior (e que talvez tivesse feito o mesmo àquele que o precedeu). Os seus rostos eram até raspados de pinturas e os seus nomes removidos de monumentos. A damnatio memoriae foi sofrida por imperadores tão importantes como Domiciano, e mesmo por um imperador cristão, o filho de Constantino, Constantino II, um fervoroso defensor da divindade de Cristo, que libertou Santo Atanásio da prisão, onde o seu irmão ariano, Constâncio, o mandou prender.

Mas não foram só os antigos romanos que a praticaram. Outro exemplo é o kulturkampf prussiano, que durante sete anos, a partir de 1871, levou o poderoso chanceler do império prussiano, Bismarck, a declarar guerra a tudo o que era católico, porque o partido político que os representava, o Zentrum, se opôs ao seu centralismo. Bismarck aprisionou todos os padres que o criticaram em homilias, estabeleceu o controle estatal das escolas, dissolveu muitas ordens religiosas e expulsou outras, como os jesuítas, da nova Alemanha que ele forjava sob o domínio prussiano.

Há muitos outros exemplos, ao longo da História, que indicam que, pelo menos a esse respeito, não há nada de novo debaixo do sol. A “cultura do cancelamento” é uma reedição, com meios mais poderosos, da tentativa de suprimir todas as dissidências, manchando a memória daqueles que pensam de forma diferente.

O politicamente correto é, agora, a “agenda 2030”, que inclui não só a luta contra as alterações climáticas, mas também o controle global da população, uma vez que o secularismo assumiu, como dogma de fé, que o homem é o maior inimigo do homem e que o seu número deve ser reduzido, a todo o custo, para que alguns possam sobreviver na Terra. Para o conseguir, não estão apenas empenhados em reduzir as emissões de CO2, mas também em promover o aborto como um novo direito humano, ou a eutanásia, ou a ideologia do género, porque quanto mais a homossexualidade for praticada, menos crianças nascerão.

Por outras razões, mas tal como Bismarck fez, a Igreja Católica é o grande inimigo a vencer, precisamente porque sempre defendeu a liberdade do indivíduo contra a ditadura do Estado (desde os mártires de Roma, até os mártires do Islã radical ou do comunismo). Quem não percebe o que está por trás desta gigantesca campanha difamatória contra a Igreja, não só é ingénuo, como também colabora com ela. Os hooligans que derrubaram uma estátua de São Junípero Serra, nas cidades que ele fundou na Califórnia, foram manipulados e envenenados por aqueles que puxam os fios das marionetes.

Ninguém se preocupa com a verdade, mas apenas em manchar o nome da Igreja, para que ela não possa se opor ao que a nova ordem mundial está promovendo. Para o conseguir, escavam no lixo para nele encontrar pedras e arremessá-las contra aquela que querem destruir.

Um exemplo tem sido a grande campanha mundial a respeito da pederastia no clero. Não importa que, como na Espanha, apenas 0,20% dos casos de abuso sejam devidos a padres; o que importa é associar o padre à imagem de um abusador, para que a Igreja não tenha força de se opor ao aborto.

Só a partir da verdade podemos e devemos pedir perdão. Qualquer outra coisa é jogar nas mãos dos inimigos da Igreja, aqueles que vasculham o lixo para fazer um “abuso do abuso” e fazer-nos calar sobre o seu projeto de uma nova ordem mundial (ou, até mesmo, nos tornar envergonhados das nossas raízes, para que nos juntemos a eles com entusiasmo).

Nem a damnatio memoriae nem o Kulturkampf atingiram os seus objetivos a longo prazo, mas causaram muitos danos. É o caso, agora, dessa “cultura do cancelamento”. Mas, se os seus ideólogos soubessem alguma coisa de História, saberiam que, tal como os seus antecessores, também eles falharão. Peçamos desculpa pelo que foi feito de errado, mas não façamos o jogo dos novos ditadores que, como os antigos, são inimigos da verdade e da liberdade.