[A seguir, trechos de uma entrevista com Cardeal Robert Sarah a propósito do lançamento de seu novo livro, Catéchisme de la vie spirituelle (Catecismo da Vida Espiritual), Paris, Fayard, 2022].

CATECISMO DA VIDA ESPIRITUAL. A vida espiritual é a coisa mais íntima, mais preciosa que temos. Sem ela, somos animais infelizes. Queria sublinhar este ponto: a espiritualidade não é um conjunto de teorias intelectuais sobre o mundo. A espiritualidade é uma vida, a vida da nossa alma.

Eu viajo pelo mundo há anos, conhecendo pessoas de todas as culturas e condições sociais. Mas posso afirmar uma constante: a vida, se não é espiritual, não é realmente humana. Torna-se uma triste e angustiante espera pela morte ou uma fuga para o consumo materialista.

Durante a quarentena, uma das palavras mais pesquisadas no Google foi a palavra “oração”. Cuidamos da economia, dos salários, da saúde, isso é bom! Mas quem se preocupou com a própria alma?

Quis responder a esta expectativa inscrita no coração de todos. Por isso escolhi este título, Catecismo da Vida Espiritual. Um catecismo é uma coleção de verdades fundamentais. Tem um propósito prático: ser um ponto de referência inquestionável para além do fluxo de opiniões. Como cardeal da Igreja Católica, quis dar a todos um ponto de referência para os fundamentos da vida da alma, da relação entre o homem e Deus.

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SILÊNCIO E VIDA ESPIRITUAL. O que podemos encontrar sem o silêncio? O barulho está em todo lugar. Não apenas nas cidades agitadas, envolvidas pelo ronco dos motores; mesmo no campo é raro não ser perseguido por um fundo musical intrusiva. Até a solidão está sob o domínio dos toques de um celular.

Portanto, sem silêncio, tudo o que fazemos é superficial. No silêncio podemos voltar às profundezas de nós mesmos. A experiência com o silêncio pode ser assustadora. Algumas pessoas não podem mais suportar este momento da verdade, no qual o que somos não é mais mascarado por nenhum disfarce. No silêncio, não há mais como escapar da verdade do coração. E quando nosso interior se revela: a culpa, o medo, a insatisfação, sentimentos de carência e vazio.

Esta experiência é necessária para ouvir Aquele que fala ao nosso coração: Deus. Ele está “mais próximo de mim do que eu mesmo”, diz Santo Agostinho. Revela-se dentro da alma. É aí que começa a vida espiritual, nessa escuta e diálogo com o outro, o Totalmente Outro, no mais profundo de mim. Sem esta experiência fundacional do silêncio e de Deus que habita no silêncio, permanecemos na superfície do nosso ser, da nossa pessoa. Quanta perda de tempo!

Quando encontro um velho monge ou monja, desgastados por anos de silêncio diário, fico impressionado com a profundidade e a radiante estabilidade de sua humanidade. O homem só é verdadeiramente ele mesmo se encontrou Deus não como uma ideia, mas como a fonte de sua própria vida. O silêncio é o primeiro passo nesta vida verdadeiramente humana, nesta vida do homem com Deus.

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RUPTURA COM AS IDEOLOGIAS DA MODA. Não quero ir com o vento! É uma ambição de folha seca, como diria Gustave Thibon. Viver, viver plenamente, exige um compromisso, um esforço e, por vezes, uma ruptura com a ideologia do momento. Em um mundo onde o materialismo consumista dita o comportamento, a vida espiritual nos obriga a uma espécie de dissidência. Não se trata de uma atitude política, mas de uma resistência interna aos ditames da cultura midiática.

A comodidade, o poder e o dinheiro não são os fins últimos da vida. Nada de belo se constrói sem esforço. Isso é uma verdade para todas as pessoas. E é ainda mais verdadeiro no plano espiritual. O Evangelho não nos promete uma “superação pessoal sem esforço”, como muitas das pseudo-espiritualidades baratas que enchem as prateleiras das livrarias. Ele nos promete a salvação, a vida com Deus. Viver a própria vida de Deus implica uma ruptura com o mundo. Isso é o que o Evangelho chama de conversão. É uma viravolta de todo o nosso ser. Uma inversão das nossas prioridades e das nossas urgências. Às vezes, significa ir contra a corrente. Mas quando todos correm para a morte e para o nada, ir contra a corrente é ir para a vida.