Várias vezes dediquei este comentário sobre a situação atual da Igreja ao apoio em defesa da vida do ser humano, desde a sua concepção até à morte natural. Embora a principal missão da Igreja seja proclamar a boa nova do amor de Deus, que inclui a existência da vida eterna, não podemos permanecer em silêncio perante a carnificina que o aborto representa, tal como não podemos permanecer em silêncio perante o racismo, a corrupção de menores, o tráfico de droga ou a guerra.

Falar do amor de Deus sem aplicar esse amor à vida quotidiana, transformaria o cristianismo numa religião espiritualista que mereceria o epíteto de “ópio do povo”.

O problema não é se as injustiças são ou não denunciadas (a maior das quais é o aborto), mas que o ponto de referência espiritual, a motivação espiritual, se perdeu em todo o imenso serviço social que a Igreja continua a levar a cabo. É sobretudo missão dos leigos trazer à vida pública todas as iniciativas que decorrem da ordem dada por Cristo de amar o nosso próximo tal como Ele nos amou. E é, sobretudo, a missão dos pastores ajudar os leigos a não perder de vista a dimensão sobrenatural desta difícil tarefa. Todos nós, um e todos, cada um no seu lugar, devemos fazer de tudo por Cristo, para que Ele possa reinar no coração de cada um de nós e na sociedade.

Um exemplo disto é o que o NEOS, a nova alternativa cultural promovida por Jaime Mayor Oreja e María San Gil, está fazendo. Procuram enfrentar a ditadura do relativismo, que, como um rolo compressor, quer passar por cima dos restos do humanismo cristão, para impor uma nova ordem mundial com um único modelo de pensamento e comportamento. Ideologia de gênero, aborto e eutanásia são três dos aspectos mais marcantes desta ditadura, cuja sombra se espalha cada vez mais sobre o velho Ocidente.

O NEOS, juntamente com a Assembleia para a Vida — que inclui as associações que lutaram contra o aborto nos últimos anos —, e mais de 200 instituições, incluindo o CEU, fizeram uma manifestação, em Madrid, no dia 26 de Junho, a partir do meio-dia da Glorieta de Bilbao, contra a nova lei do aborto aprovada pelo governo social-comunista de Espanha.

É uma lei tão radical, que um católico não pode ficar indiferente a ela. O aborto será permitido a menores, a partir dos 16 anos de idade, sem o consentimento ou mesmo o conhecimento dos pais. Como Carmen Fernández de la Cigoña salientou, na conferência de imprensa realizada na terça-feira para apresentar o chamado à manifestação, os menores não podem ir à escola sem um consentimento parental assinado, mas podem matar a criança que trazem no ventre, sem que ninguém da sua família saiba e possa aconselhá-los. Mesmo o período de reflexão antes de realizar um aborto, que foi imposto pela já muito permissiva lei anterior, será abolido. Além disso, a nova lei significará ainda mais problemas aos médicos que fazem uso da objeção de consciência, pois haverá um registo oficial de todos eles, com tudo o que isso poderá implicar para a sua vida profissional, se quiserem continuar trabalhando no sistema de saúde pública.

Na Espanha, existe certamente uma forte consciência provida — a fundação “Derecho a vivir” entregou, nesta semana, 91.118 assinaturas contra a nova lei do aborto —, mas não é suficiente. Se países, como os Estados Unidos, estão conseguindo inverter as leis do aborto, é porque os defensores da vida humana nunca cederam ao desânimo ou ao assédio dos meios de comunicação social. Todos os anos, demonstram a sua firme determinação em ir contra o aborto na “Marcha em Washington”, que reúne centenas de milhares de pessoas.

Na Espanha é tempo de sair novamente à rua, para que aqueles que estão implementando a ideologia do gênero, incluindo o aborto, compreendam que existe um setor da sociedade que não desistiu e que não vai aceitar, docilmente, a imposição da Agenda 2030 por eles programada.

Um católico deve fazer de tudo por Cristo, e isto deve ser posto em prática na vida quotidiana. Há momentos especiais em que permanecer em silêncio face a leis tão terríveis, como a nova lei do aborto, significaria tornar-se cúmplice da mesma. É por isso que devemos sair da rotina e da inércia, mostrando que existimos e ainda estamos vivos, indo para as ruas. Devemos fazê-lo por Cristo e pela vida dos mais fracos — as crianças que são vítimas de aborto.