No domingo, o Papa canonizou dez novos santos. Isto, que deveria ser uma grande notícia para todos os católicos, tem tido pouco impacto e a maioria nem sequer ouviu falar dela. Se tivesse acontecido de um padre ser condenado por pederastia, teria sido amplamente noticiado pela maioria dos meios de comunicação social. Diz-se, com razão, que uma árvore em queda faz mais barulho do que mil crescendo silenciosamente na floresta. Em parte (é preciso admiti-lo) isto é culpa nossa.

Entre os novos santos, estão quatro mulheres e seis homens. As quatro mulheres são fundadoras de congregações religiosas e vale a pena mencionar Madre Maria Francisca de Jesus, que, embora nascida em Itália, morreu no Uruguai e é, portanto, a primeira santa desse país americano. Entre os homens encontram-se dois mártires: o Carmelita Titus Brandma, vítima dos nazistas, e o indiano Lazarus, vítima dos radicais hindus.

Mas, sobretudo, há a grande figura de Charles de Foucauld, um verdadeiro mestre de espiritualidade, uma figura controversa devido às suas origens libertinas, que se aproximou gradualmente de Deus até Nele ser consumido, como uma chama que se esgota ao dar-se a si mesma para oferecer luz. Foi assassinado por um muçulmano no seu humilde eremitério em Tamanraset, Argélia, mas não é um mártir porque se diz que a causa foi roubo e não ódio à fé.

A oração iluminou a vida de muitos, levando-nos à confiança absoluta no Senhor: “Meu Pai, abandono-me em Ti. Faz de mim o que quiseres. O que for que faças comigo, agradeço-Tes. Estou pronto para tudo, tudo aceito, desde que a Tua vontade seja feita em mim e em todas as Tuas criaturas. Não desejo mais nada, meu Deus. Ponho minha vida em Tuas mãos: entrego-a, meu Deus, com todo o amor do meu coração, porque Te amo, e porque para mim amar-Te é dar-me, entregar-me sem medida em Tuas mãos, com infinita confiança, porque és meu Pai”.

Fizeram assim não só Charles de Foucauld, Titus Brandsma, Madre Mary Frances, e os demais que acabam de ser canonizados, mas milhares e milhares que, ao longo da história, têm sido oficialmente reconhecidos como santos. E, ao lado deles, num número muito maior que, como os grãos de areia na praia, ninguém pode contar: são todos aqueles santos anônimos que foram pais e mães de família, freiras, padres, missionários, confessores da fé com as suas vidas exemplares, ou ainda mártires que derramaram o seu sangue pelo Senhor. Santos camponeses ou soldados, donas de casa ou estudiosos, políticos ou empregados de escritório, leigos ou padres, bispos e papas, ou crianças. Todos eles, presididos por Cristo e a Virgem Maria, a Rainha dos Santos, formam um exército vivo que habita na pátria final, onde nos esperam. Seu sangue corre em nossas veias. É por isso que dizemos que a Igreja é santa, e dizemo-lo com argumentos sólidos, pois cada um destes santos é a prova de que estamos certos.

É verdade, desgraçadamente, que também há pecadores na Igreja. De fato, para além da Santíssima Virgem e de Nosso Senhor, somos todos pecadores. Mas aqueles pecadores, que somos nós, lutamos todos os dias para sermos melhores, para sermos santos como aqueles que nos precederam, para que um dia, por misericórdia divina, possamos entrar na cidade de Deus, nossa pátria.

É por isso que não devemos nos entregar às mãos de nossos inimigos, permitindo que nos levem para onde eles querem que vamos.

Caminhamos ao lado de santos, que um dia estarão no céu, mesmo que não sejam oficialmente canonizados; a sua alma ilumina a nossa alma, como uma luz que brilha na escuridão. É tempo de deixar para trás os complexos de inferioridade. Nos diziam que era preciso parar de falar no Céu, se não nos converteríamos em “ópio do povo”; e, assim, infelizmente, fomos deixando de falar na vida eterna.

Teremos sempre de pedir perdão, pelos pecados pessoais e pelos pecados daqueles que nos precederam, mas isto não pode tornar-se uma atitude mórbida, doentia e injusta. Devemos, apesar dos casos lamentáveis de padres pederastas, estar orgulhosos da história de nossa Igreja, do nosso passado e do nosso presente, porque isso é fazer justiça — e porque é isso que nos tirará da armadilha em que os nossos inimigos conseguiram aprisionar-nos, com o nosso próprio consentimento.

À medida que nos abandonamos a Deus, como nos ensinou São Charles de Foucauld, esforcemo-nos também por ser santos e purificar o rosto de uma Igreja que é santa, apesar de cheia de pecadores que nem admitem que o são.

Publicidade