Morreu, no dia 3 de maio de 2022, o padre belga Michel Schooyans. É uma grande perda para o mundo. Sua principal ocupação profissional foi a de professor no campus francófono da Universidade Católica de Louvain, na pequena cidade belga de Louvain-la-Neuve, onde por vinte e cinco anos ensinou filosofia política (em especial as ideologias contemporâneas e a ética das políticas populacionais).

Atuou, também, na Santa Sé como membro da Pontifícia Academia das Ciências Sociais (pela sua respeitada atuação científica) e foi consultor do Pontifício Conselho para a Família (pelo permanente empenho contra o aborto, em defesa do direito natural e da moral católica).

Para nós, brasileiros, é interessante saber que, logo depois de ordenado, padre Schooyans viveu no Brasil por uma década, de 1959 a 1969, como pároco num bairro proletário de São Paulo e professor da PUC paulistana, antes dessa universidade abrir-se a correntes de pensamento pouco ou nada cristãs.

Culturalmente, era um europeu ocidental, admirador das artes e sobretudo da música; sempre arranjava tempo para sentar-se ao piano e tocar seus clássicos preferidos, em especial Schumann e Schubert. Homem simples, de fé sólida, naturalmente alegre e de grande generosidade, deixou toda a sua obra gratuitamente disponível para download na internet, em várias línguas.  

Com mais de vinte livros publicados, o mais célebre é provavelmente A face oculta da ONU [La face cachée de l’ONU. Paris, Le Serment, 2000], no qual denunciou, apoiado em ampla documentação, o desvio de rota das Organizações da Nações Unidas, que se foi distanciando cada vez mais da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, até se tornar a ponta de lança do projeto globalista de destruição das soberanias nacionais e gradual instauração de um governo planetário.

Em sua longa vida, padre Schooyans debruçou-se sobre os principais problemas gerados pelo projeto globalista — aborto, eutanásia, ideologia de gênero, feminismo, ambientalismo —, sempre tratados com a seriedade de um homem de ciência atento às fontes e a firmeza do cristão que não abria mão de princípios inegociáveis.

Sob esses problemas, que no fundo eram fins a ser atingidos e implicavam uma mudança estrutural no próprio conceito de vida humana, da sexualidade e do relacionamento conjugal, a transformação do meio-ambiente em objeto idolátrico, a multiplicação irracional dos direitos humanos etc., padre Schooyans conseguia ver com nitidez o elo que os unia a um grande propósito final, aparentemente humanístico, mas de inegável raiz demoníaca, que era o de reduzir numericamente a população do planeta, como se a humanidade não passasse de uma informe massa de modelar nas mãos de uma caprichosa elite mundial.

O sacerdote belga nunca se cansou de alertar os cristãos sobre a radical incompatibilidade dessas posições da ONU — que jamais se realizariam sem o braço forte do totalitarismo — com as tradicionalmente defendidas pela Igreja Católica.