[Morreu na semana passada, dia 03/05/2022, o padre belga Michel Schooyans, que dedicou toda a vida à filosofia política. Foi professor da Universidade Católica de Louvain. Esteve no Brasil por uma década, de 1959 a 1969, como professor da PUC paulistana e pároco na periferia de São Paulo. Seu livro mais célebre é A face oculta da ONU, no qual denuncia, apoiado em ampla documentação, o desvio de rota das Organizações da Nações Unidas, que se foi distanciando cada vez mais da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, até se tornar a ponta de lança do projeto globalista de destruição das soberanias nacionais e instauração de um governo planetário. Deixou toda a sua obra disponível aqui, gratuitamente, em várias línguas, em arquivos pdf].

Tanto na linguagem comum quanto nas grandes tradições humanistas, a palavra alma, em hebraico nèphèd, significa o sopro que mora no ser vivo; fala-se então do sopro de vida. Na hora da morte, a alma, o sopro de vida, abandona quem expira.

Na filosofia, a palavra latina anima, em português alma, designa habitualmente um dos dois componentes (ou princípios) do ser humano. A alma é o componente graças ao qual o homem pode sentir e pensar. O outro componente (ou princípio) é o componente material, isto é o corpo. O corpo é animado pela alma. A alma anima a matéria, isto é lhe dâ vida. Em poucas palavras, a alma e o corpo compõem o ser vivo. Tal é o caso do homem, composto de dois princípios.

Aristóteles, tido como um dos maiores filósofos da história, considerava, sim, que o homem é composto dos dois princípios corpo-alma, sôma-psychè. Mas não enxergava que o homem não é apenas um ser vivo como os animais. Para ele, corpo e alma são inseparáveis; portanto, quando o corpo perece, a alma também perece.

Acontece que os filósofos ulteriores bem como os teólogos cristãos esforçam-se em mostrar que a alma do ser humano não está totalmente vinculada ao corpo. Os dois, corpo e alma, não são ensamblados ou por assim dizer embutidos. A alma humana não se pode reduzir a um princípio ou componente que animaria e organizaria a matéria. A alma humana é um princípio superior, espiritual, que permite ao homem exercer atividades superiores às quais os animais não têm acesso. A alma permite então ao homem abrir-se a conhecimentos inesperados, distinguir o bem do mal, exercer sua vontade livre, realizar atividades complexas.

Os filósofos materialistas duvidam ou negam que a alma humana exista porque não se vê; o homem seria um ser puramente material. De fato, a alma humana é espiritual; e por isto não podemos vê-la. Porém qualquer um pode perceber ações que dela procedem: descobertas de verdades, reconhecimento de seres semelhantes, compreensão de fenômenos até agora não explicados, abertura a verdades antes consideradas como inaccessíveis.

Cabe acrescentar que a maioria dos filósofos concordam em afirmar que a morte é a separação dos dois componentes, corpo e alma. E muitos homens consideram que a ressurreição será a volta da alma num corpo transfigurado.

Eis o que escreve São Paulo a respeito: “Cristo transfigurará o nosso pobre corpo, conformando-o ao seu corpo glorioso, com aquela energia que o torna capaz de a si mesmo sujeitar todas as coisas.” (Carta aos Filipenses, 3, 21). O Catecismo da Igreja comenta este texto dizendo: “Deus, na sua omnipotência, restituirá definitivamente a vida incorruptível aos nossos corpos, unindo-os as nossas almas pela virtude da ressurreição de Jesus.” (n° 997).

Outros caminhos se oferecem a quem quiser progredir na descoberta do mistério da alma humana. Não é raro que artistas de diversas disciplinas nos ofereçam, com a sua linguagem própria, luzes inesperadas que nos dão acesso a este mistério. Podem ser mencionados aqui dois exemplos contemporâneos.

Através da sua pintura, Chagal (1887-1985) entreabre uma cortina que nos dá por assim dizer uma previsão do que serão as “almas glorificadas” das quais fala São Paulo. Vejam-se entre muitas obras La création du monde (Nice) ou as suas ilustrações de La Bible (1960). Através da sua linguagem, a música, Olivier Messiaen (1908-1992) parece associar-nos já ao coro dos anjos, em obras como Les corps glorieux (1939) ou Éclairs sur L’Au-delà (1987).

A estas reflexões, a tradição bíblica aporta uma contribuição mais audaz e ampla do que a que encontramos na filosofia grega clássica. A palavra hebraica nèphèd, traduzida em grego pela palavra psyché e em latim pela palavra anima, é bem mais rica do que estas. Nèphèd significa o sopro, a vida, o homem vivo, a pessoa. O homem é ser vivo porque Deus, ser espiritual por excelência, Ihe insuflou o seu sopro divino nas narinas.

A mensagem da Bíblia a respeito da alma desemboca assim numa mensagem de esperança. De fato, Deus que suscitou o sopro de vida na matéria para que o homem viva, poderá ressuscitar nova vida aos corpos que a morte tivesse separado da alma humana. Jesus é o primeiro ser humano a viver esta passagem. Se incarnou num corpo humano, foi morto e ressuscitou, ressurgiu. O seu nascimento, sua morte e sua ressureição justificam a esperança na nossa própria ressurreição.

Num hino do século XI, utilizado até hoje na liturgia da Páscoa, encontramos uma chave de ouro para esta misteriosa história da alma humana, da nossa alma:

Mors et vita duello conflixere mirando:
Dux vitae mortuus regnat mous.
(A morte e a vida lutaram num duelo espantoso:
O autor da vida estava morto; eis que vive e reina.)

https://www.michel-schooyans.org/images/publications/ArticlesPT/2013NotaSobreAAlma.pdf