[O carioca Ronald de Carvalho (1893-1935) foi nome importante do modernismo brasileiro e português. Escreveu uma famosa História da literatura brasileira, em 1919. Como poeta, passou por todos os estilos do começo do século XX: parnasianismo, decadentismo, modernismo, neo-romantismo. Estudou filosofia e sociologia em Paris. Foi diplomata e ministro de Estado, cargo que ocupava quando um acidente de automóvel lhe tirou a vida, aos 42 anos, quando sua prosa ensaística chegava ao pleno amadurecimento.  Estava bem por dentro do que ia pelo mundo. Veja-se o que já dizia, em meados dos anos trinta, sobre o comunismo soviético: “…o Governo Bolchevista é a encarnação do mais desesperado capitalismo (…) A ditadura do proletariado [é] a simples máscara de um formidável jogo de bolsa, secretamente auxiliado pelos magnatas da alta finança, que se divertem nos seus castelos ingleses, constroem arranha-céus em Nova York e Chicago, compram ações de companhias de navegação e estradas de ferro na América do Sul, na Ásia e na Austrália”].

Depois de treze anos de experiência comunista, feita in anima nobilis, em detrimento da própria substância humana, com o sacrifício doloroso de todo o patrimônio da cultura ocidental, os observadores dos meandros da politica universal conseguiram chegar a esta conclusão espantosa: o Governo Bolchevista é a encarnação do mais desesperado capitalismo. As cinzas de Lênin se inflamarão, um desses dias, na sua cripta de Moscou, e, do seu poderoso cérebro, o impossível sonho marxista explodirá em lavas de revolta e maldição.

Já as profecias de Trotsky, em suas Memórias, se convertem em formulas exatas da realidade. De fato, ante as monstruosidades provocadas pela execução do Plano Quinquenal, ninguém, de boa fé, poderá duvidar mais de que a ditadura do proletariado seja a simples máscara de um formidável jogo de bolsa, secretamente auxiliado pelos magnatas da alta finança, que se divertem nos seus castelos ingleses, constroem arranha-céus em Nova York e Chicago, compram ações de companhias de navegação e estradas de ferro na América do Sul, na Ásia e na Austrália.

Stalin ultrapassou, no seu faro de especulador sinistro, as combinações mais sutis, os cálculos mais impudentes da aristocracia israelita da Europa. Não julguem os leitores apressados que os nossos comentários são fruto de ódio burguês ou artigo de encomenda, mera peça de engrenagem do sistema de contrapropaganda conservadora. Basta um minuto de raciocínio desinteressado, livre de qualquer paixão partidária, para convencer um homem de boa vontade, para convencer o mais exaltado marxista de que não há exagero em nossas conclusões.

Senão, vejamos. De que argumentos se serviam os apóstolos de Marx e Engels para combater as democracias capitalistas? Da escravização do homem à máquina, da compressão militarista, da absorção do individuo pelos barões feudais da indústria, dos trustes e dos bancos, da supressão da liberdade política, transformada em instrumento cego do poder.

Segundo os profetas da grande reforma social, o mundo só se transformaria, a humanidade só seria feliz, quando reinassem os mandamentos da Bíblia do Trabalho, de onde se derramariam, aos quatro ventos, as sementes da idade de ouro. O maximalismo, triunfador na Rússia, foi recebido pelas esquerdas revolucionárias como o sinal precursor do rápido estabelecimento, por todo o planeta, dos governos da igualdade, da liberdade e da fraternidade. O poder público deixaria de constituir o privilégio de meia dúzia, para se fraccionar em tantas parcelas quantas representassem os habitantes de um país. Os exércitos e as esquadras desapareceriam. A propriedade seria comum. O trabalho seria, como nos cantos de Hesíodo, uma disciplina de alegria. O governo seria uma comunhão.

Stalin, espertíssimo e prático, desde o desaparecimento de Lênin, compreendeu perfeitamente que a nova astronomia social conduziria o mundo a um estado de gaseificação próximo da nebulosa. E, como não lhe era fácil reagir, dentro da realidade, aceitou solertemente as imposições irremediáveis desta sob o disfarce das formulas comunistas. Começou por destruir, desde logo, os restos de uma elite, ainda emergentes do cataclismo de outubro. Para reinar comodamente, suprimiu o espírito. A linguagem das tipografias, na União das Repúblicas Soviéticas, é uma só. Todas “falam bolchevista”. O livro, o jornal, qualquer espécie de papel impresso participa do dogma stalinista. O ditador reduziu a Rússia a uma tênue minoria, sob a sua tutela. Tão mesquinha é, hoje, a minoria governamental, que a “minoria czarista” seria, em confronto, uma enorme população.

Mas não se se satisfez com essas primordiais medidas. Para remediar o caos financeiro e econômico, para juntar o ouro necessário à manutenção da sua ditadura, ameaçada de ruir por falta de numerário, Stalin lançou mão de um alvitre digno dos persas e dos chins do Celeste Império. Como não lhe era possível realizar transações ostensivas com a alta finança inglesa, americana e francesa, aliou-se a ela, sub-repticiamente, de um modo singular: recebendo do Reich os milhões que Londres e Nova York enviavam a Berlim, a juro alto, e a Alemanha lhe emprestava, rara fins econômicos e políticos, a juros ainda mais altos. Esses milhões foram empregados, na quase totalidade, no armamento do exército vermelho, cujos oficiais e soldados gozam de favores excepcionais e de privilégios semelhantes aos dos membros do G.P.U. e do governo ditatorial. Protegido por esse formidável “escudo armilar”, Stalin tenta salvar o poder e a pele, à custa das mais cruéis imposições, à custa da carne e do sangue do povo russo. O Plano Quinquenal de cuja falência ninguém duvida hoje, mau grado o fogo de artificio de Moscou e dos beócios que o aplaudem, representa a escravização de cerca de nove décimos da população russa. O Plano de Stalin baseia-se no mais perigoso “dumping” de que há notícia. Para prolongar-se no poder, o ditador, que habita o palácio dos Czares e come na baixela dos Alexandres e de Nicolau, revogou todas as leis de Lênin e, o que é mais extraordinário, todos os “ukases” imperiais sobre as liberdades do operariado citadino e rural. Nas florestas, abatendo árvores para o “dumping” da madeira; nos campos, plantando e colhendo trigo, centeio e aveia, para o “dumping” dos cereais; nas fábricas, rebatendo o ferro, o aço, trançando o fio de seda, o fio de algodão, e o fio de lã, para o “dumping” industrial, o operário russo (consultem-se os últimos decretos de Stalin, regulando a produção) não tem horas certas de trabalho. Não come nem repousa. Não dorme quase. Doze, quatorze horas de labor intenso, junto às fornalhas ou debaixo da neve, entre os pinhais da fronteira finlandesa, o homem russo esgota as suas últimas resistências físicas, muitas vezes separado à força da mulher e dos filhos, os africanos da era colonial, para enriquecer um regime de espoliadores, sócios do mais desenfreado capitalismo.

Stalin tem fome de ouro. Mas a sua ditadura armada, que incendeia os originais e os retratos de Tolstói e obriga a inteligência a vestir a túnica bolchevista, está fadada ao malogro, porque não repousa no espirito mas nas exigências do estômago e do baixo ventre dos soldados vermelhos. Quando faltar carne fresca, como se comportarão os mártires do bolchevismo?

(Ronald de Carvalho. Caderno de imagens da Europa. São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1935).