[Alexander Dugin, o filósofo próximo ao Kremlin que há dez anos polemizou com Olavo de Carvalho, defende o ataque russo, afirmando que se trata de uma ação militar, não uma invasão… Quanto ao presidente Putin estar doente, diz ser desinformação: garante que ele nunca esteve melhor. E se a OTAN e os EUA entram em campo, usarão a bomba atômica. Entrevista realizada pelo jornalista italiano Luigi Mascheroni e publicada em 14/03/2022, em Il Gionale].

Dugin, você está em Moscou agora. Qual é a situação lá?

“Tudo muito tranquilo. A população apoia totalmente Putin. Não há oposição real. E não tanto porque haja censura contra aqueles que criticam as operações militares na Ucrânia, mas porque o povo russo é verdadeiramente solidário com o presidente. A opinião pública aqui tem os objetivos de Putin muito claros e está preparada, porque entende que a pressão da OTAN contra nossas fronteiras é inaceitável”.

Nos jornais e na TV vemos prisões e protestos em Moscou.

“Eu moro no centro de Moscou. Não há quem proteste, a não ser grupos muito pequenos, ou indivíduos isolados, e nem mesmo ligados uns aos outros. A percepção de um protesto interno é fruto da desinformação da mídia ocidental. Eles tomam imagens de eventos do passado, em diferentes contextos, e espalham que há contestação».

Você tem conseguido falar com Putin recentemente?

“Esta é uma pergunta pessoal, que não respondo. Posso falar de geopolítica, se você quiser”.

O que está acontecendo na Ucrânia?

“Para entender isso, é preciso voltar às causas e ler a dissolução da URSS dentro de um contexto que não é apenas ideológico, mas geopolítico. E se a geopolítica é a ciência que considera o mundo como o campo de batalha entre o poder marítimo e o poder terrestre, nesse sentido o fim da URSS foi a vitória do poder do mar e o colapso do poder da terra. Depois de 1989, a Rússia perdeu a autoridade sobre suas zonas de controle em favor do Ocidente, e o Ocidente ganhou influência nesse vácuo, que foi consequência da fraqueza do poder terrestre. O Pacto de Varsóvia foi dissolvido e a OTAN foi reforçada ».

E a Ucrânia permaneceu no meio.

“Quando a Ucrânia se separou da Rússia e se tornou independente, aproximou-se gradualmente da OTAN, mas só foi capaz de fazê-lo porque na década de 1990 a Rússia de Gorbachev e depois de Yeltsin era uma Rússia fraca. Mas quando ela voltou forte com Putin, a pressão permanente da OTAN contra nossas fronteiras – algo que ninguém pode negar – não era mais aceitável. Putin tornou-se mais forte e com uma consciência geopolítica mais desenvolvida e, assim, o equilíbrio mudou. E ele respondeu a uma situação intolerável: primeiro na Geórgia, depois na Crimeia, depois em Donbass, onde o exército ucraniano era um perigo constante: a população era bombardeada e civis eram mortos. O resto veio por si mesmo: o apelo da Rússia para não deixar a Ucrânia entrar na área de influência do Ocidente foi rejeitado, e por isso veio a guerra”.

Mas é uma invasão.

“É uma operação militar. Putin explicou muito bem os propósitos, que são dois. Primeiro: desnazificar um país cujo governo não apenas tolerou, mas apoiou grupos neonazistas para dar força a uma identidade nacionalista ucraniana baseada no ódio aos russos. Uma identidade artificial criada através de uma ideologia que o Ocidente fingiu não ver, porque odiar os russos é mais importante do que odiar os nazistas. Segundo: mudar o regime político em Kiev para trazer a Ucrânia de volta à esfera política, militar e estratégica russa. Atenção: a operação militar em curso não é uma guerra contra a OTAN. Mas uma operação para defender uma área de interesse vital para a Rússia, que por muito tempo foi ocupada indiretamente pelo poder ocidental durante um momento de fraqueza de Moscou ».

A guerra não parece estar indo bem para Putin.

“Eu penso que não. Putin sabia que a Ucrânia tem um grande exército e que assumir o controle de um país com 40 milhões de pessoas não seria fácil. É por isso que as operações de campo são prolongadas. Derrotar um exército de 600.000 soldados, que tem ao seu lado o apoio e a propaganda de todo o Ocidente, não é fácil. Ninguém aqui acreditava em uma vitória curta. Enquanto isso, a Rússia tem o controle total do céu. A guerra durará um mês ou mais, mas o exército russo vencerá. Não há nenhum elemento inesperado nesta guerra para Putin.”

Analistas dizem que Putin está doente, pouco lúcido, distante da realidade.

“Os modelos de desinformação nesses casos são sempre os mesmos: passar a ideia de que um líder político indesejado é louco, doente, que não controla mais a situação. Em vez disso, Putin está saudável, lúcido e muito forte. Nunca esteve melhor “.

Você distingue em seus livros um Putin lunar e um Putin solar. O que isto significa?

“O Putin solar é o Putin da Grande Eurásia, o Putin patriota e soberano, o homem que rompe com a pós-modernidade ocidental, contra a globalização. O Putin lunar, por outro lado, é aquele que se compromete com o Ocidente, a OMC, Davos, a elite liberal atlanticista”.

Qual deles é o Putin de hoje?

“Hiper-solar”.

Todos temos medo do uso da bomba atômica.

“Este é o único problema real, mesmo para nós. Tudo depende dos Estados Unidos. Se Washington se limitar a sanções, pressão política e apoio econômico à Ucrânia, em suma, se o Ocidente apoiar indiretamente Kiev com ações legítimas, nada acontecerá. Mas se houver um ataque direto da OTAN, a Rússia responderá com meios simétricos. Se nos sentirmos ameaçados em nosso território, usaremos armas nucleares.”