Paris, maio de 1968. Da janela de seu apartamento no Quartier Latin, um doutorando inglês de 24 anos observa o tumulto dos protestos estudantis. “Minha experiência em Paris em 1968 — escreveu anos depois — me persuadiu de que a política revolucionária inevitavelmente leva ao niilismo e a um mundo fragmentado pela suspeita e pelo ressentimento”. Aquele jovem intelectual entendeu que era melhor “conservar as coisas do que derrubá-las”. Esse homem era Roger Scruton (1944-2020), o maior intelectual conservador britânico na virada do século. Há quem o chame de “o último dos humanistas”, alguns de “filósofo da beleza”, outros de “polemista brilhante”. Entre os opositores, há aqueles que o chamaram de “filósofo controvertido”, outros de “simpático conservador”. Para além dos rótulos, Scruton é sem dúvida uma figura cujo pensamento será útil levar em consideração daqui para a frente.

Um grupo de intelectuais conservadores italianos decidiu dedicar um valioso e denso ensaio a Scruton, escrito a várias mãos (Roger Scruton. Vida, Obras e Pensamento de um Conservador, Giubilei Regnani, 2021), organizado por Luigi Iannone e Gennaro Malgieri, que resume de forma abrangente todos os aspectos da produção scrutoniana, em todos os âmbitos intelectuais percorridos pelo filósofo britânico: a política , arte, religião, meio ambiente. Além dos editores, contribuíram para o volume Federico Cenci, Renato Cristin, Christopher Fear, Luca Fumagalli, Francesco Giubilei, Giancarlo Ianulardo, Antonio Lombardi, Susanna Manzin, Andrea de Meo Arbore, Giulio Meotti, Corrado Ocone, Oscar Sanguinetti e Aldo Stella.

O livro nunca separa o homem Scruton do intelectual. Percorrendo as suas páginas, pode tocar-se com a mão toda a inquietude de quem remou contra a maré durante cinquenta anos, tornando-se não um estudioso de gabinete, que se depara com frios paradigmas acadêmicos, mas uma pessoa que viveu intensamente sua própria vida e sua própria época, buscando compreender o seu tempo e fazendo-o com sucesso. Uma vida que vê a luz na fase de declínio da Segunda Guerra Mundial e que se despede deste mundo no começo da atual pandemia. Entre uma e outra coisa, viu as manifestações de Sessenta e Oito, o colapso do comunismo, a globalização, o ambientalismo radical, o terrorismo islâmico, a crise do projeto europeu. Scruton foi uma testemunha atenta de cada uma dessas mudanças de época, sem nunca abrir mão da abordagem própria do filósofo.

Nos anos oitenta, distinguiu-se pelos seus contatos com os dissidentes da Europa do Leste, o que lhe valeu a fama de anticomunista. Scruton, no entanto, ficou um passo atrás (ou talvez já estivesse um passo à frente…) em relação à revolução liberal de Thatcher e Reagan. Na verdade, era muito mais próximo do conservadorismo clássico de um Edmund Burke ou de um lorde Salisbury do que de um von Hayek. “Nem o socialismo nem o liberalismo — escreve Scruton no final dos anos setenta — podem dar conta da real complexidade da sociedade humana, e ambos só parecem plausíveis porque desviam a atenção do que é real, para o que é simplesmente ideal”.

Como conservador, Scruton vivencia a descristianização da Europa e a coloca em relação ao desafio do Islã. Suas posições foram identificadas com as dos “teocons” americanos [conservadores de base religiosa], mas, mesmo nesse contexto, o filósofo britânico escapa a rótulos fáceis. Se é verdade que sua oposição ao multiculturalismo e à oikofobia [desprezo pela própria cultura] é frontal, Scruton não minimiza o problema do Islã, nem seu domínio sobre as gerações mais jovens, entediadas pelo secularismo. “Se não defendermos a nossa fé, o Islã levará a vantagem”, observou o filósofo em 2014; no entanto, sendo mais adaptável à modernidade, o cristianismo tem “mais chances de sobrevivência se os fiéis souberem dedicar o seu coração e a sua mente a isso”.

Roger Scruton é tudo isso e muito mais. Sua copiosa obra inclui ensaios sobre planejamento urbano, ecologia, até mesmo sobre os prazeres do convívio e, em particular, do vinho. Ele ama a vida no campo e a natureza incontaminada, mas, como conservador, não pode aceitar o ambientalismo como uma nova religião. Ele ama os animais, mas, como um bom conservador, não consegue vê-los como substitutos dos seres humanos. Como conservador, Scruton sentia-se muitas vezes melancólico e amargurado pelos valores que o Ocidente estava perdendo. Ele não era, no entanto, um reacionário ideológico, nem um tradicionalista nostálgico. Para o filósofo britânico, a nobre função do intelectual conservador é ajudar a proteger tudo o que se destina a manter a humanidade viva pelos séculos afora. O de Scruton é um “conservadorismo criativo” do “eterno retorno”. Também por isso, não é retórico considerá-lo um mestre destinado a ensinar muitas coisas às próximas gerações.

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