Uma estratégia política clássica é a de aproveitar os momentos de tensão, quando a atenção do mundo está concentrada em certos acontecimentos, para aprovar leis que, noutras circunstâncias, gerariam uma grande agitação social e a rejeição de parte da população. É isto que está acontecendo agora com a Ucrânia, numa situação que poderá ser o início de uma terceira guerra mundial. Enquanto os olhos do mundo estão postos na Ucrânia e grandes catástrofes são anunciadas, tais como que o país será arrasado e a sua capital, Kiev, saqueada, a cultura da morte continua a tomar medidas para consolidar a sua ditadura.

Na União Europeia está estabelecido que, a cada seis meses, o governante de um dos estados membros detém a presidência. Desde 1º de Janeiro, esse posto é ocupado por Macron, o presidente francês. No seu discurso de tomada de posse, disse que o seu objetivo era fazer do aborto um direito e torná-lo um elemento essencial daquilo a que chamou “valores europeus”. Fazer do aborto um direito significaria que ninguém se pode opor a ele, ou mesmo criticá-lo. Significaria também que a objecção de consciência por indivíduos ou instituições — por exemplo, hospitais católicos — seria proibida. A lei seria aplicada com toda a força contra aqueles que criticam publicamente o aborto ou tentam dissuadir, pacificamente, alguém de fazer um aborto, tratando-os como se fossem criminosos ou mesmo terroristas.

Isto colocaria a Igreja numa situação difícil, que poderia inclusive ser jogada na ilegalidade, a menos que ela mudasse os seus ensinamentos e aceitasse o aborto como apenas mais uma forma de controle da natalidade. Se se acrescentar a isto a perseguição que enfrentaria por continuar considerando a prática de homossexualidade um pecado, e insistir que o sexo das pessoas está ligado à biologia e não à sua própria opinião ou desejo, e seria uma tempestade perfeita contra a Igreja enquanto instituição e contra os católicos em particular.

Mas isto não está acontecendo apenas na Europa. Nos Estados Unidos, o Presidente Biden continua insistindo em apoiar o aborto com todas as suas forças, fazendo dele, como na Europa, um direito a que ninguém se pode opor. Na América Latina, cada vez mais países estão se inclinando para esta espécie de qualificação de aborto, a fim de proibir qualquer tipo de objeção ao mesmo.

O aborto, no entanto, é apenas a ponta de lança, porque juntamente com ele vem a eutanásia e todo o pacote de medidas legislativas ligadas à ideologia LGBT. Infelizmente, a opinião pública tem sofrido o efeito do que é conhecido como a “síndrome do sapo cozido”: em poucos anos, passou de considerar o aborto, a eutanásia e todo o resto como inaceitável, a considerá-lo como algo tolerado e, finalmente, a transformá-lo num direito. Este fenômeno também tem ocorrido no seio da Igreja, como evidenciado pelo desafio aberto da Igreja alemã a muitas normas morais católicas, sem rejeição pública e generalizada por parte da hierarquia e dos fiéis.

A menos que uma catástrofe force aqueles que controlam o mundo a repensar a sua estratégia, a Igreja terá de escolher (a médio, ou mesmo a curto prazo) entre submeter-se ou aceitar as consequências de manter-se altiva. O excelente secretário do Episcopado espanhol, Monsenhor Argüello, disse há alguns dias que Cristo fundou a Igreja como o sal da terra e não como o açúcar do mundo. Ele está certo. Mas temos de estar preparados para pagar o preço de ser sal, fermento e luz que brilha na escuridão.

É preciso preparar-se para isto. A água, em que o sapo está mergulhado, já está muito quente e há poucas hipóteses de ele saltar para fora da panela de cozimento. Está dormente e não percebe qual será o seu fim. O mesmo se aplica à maioria dos católicos praticantes, que são cada vez menos; estão cada vez mais velhos e não querem complicações (as suas rotinas lhes bastam).

Ou despertamos a consciência daqueles que permanecem fiéis, ou acabaremos por ser o açúcar no café, em vez do sal da terra. Infelizmente, parece que não estamos nos preparando para ser sal, mas sim para nos tornarmos mais um elemento utilizado pelo sistema para adormecer as pessoas. Enquanto isto, a água vai ficando cada vez mais quente, sem que o sapo procure salvar-se a si próprio.