Não me esqueço quando, em 2005,a mídia noticiou que o maestro indiano Zubin Metha, então regente da Filarmônica de Israel, tinha eliminado (“cancelado”, prefere-se dizer hoje) o compositor Richard Wagner do repertório daquela orquestra.

Ao contrário do que alguns haviam insinuado, Metha disse à imprensa que não nutria nenhuma antipatia pessoal pela obra do compositor alemão, como seria normal em alguém com a sua formação musical. Pelo contrário: entre suas regências e gravações, encontram-se o Tristão e Isolda, Tannhäuser, O anel dos Nibelungen, A valquíria, O crepúsculo dos deuses. Ninguém estudaria nem regeria (por algumas boas horas) essas longas peças, se não as amasse.

No mesmo ano o maestro esteve no Brasil, e, em entrevista gravada para o programa Roda-Viva, da TV Cultura, explicou que a exclusão de Wagner era respeito aos sobreviventes do holocausto que ainda viviam em Israel.

Certamente, a não execução de Wagner em Israel — restrição vigente até hoje — devia ser uma “cláusula pétrea” no contrato de Mehta com a Filarmônica daquele país, que o regente respeitou e inclusive disse compreender. Se a música de Wagner fazia os sobreviventes lembrarem-se dos ignóbeis campos de concentração, era justo, segundo ele, que não se tocasse Wagner em território israelense.

Não bastava evitar a execução do “Coro dos peregrinos”, da ópera Tannhauser, que os nazistas mandavam sadicamente tocar durante o sacrifício humano? Parece que não. Era preciso cancelar todo o Wagner, pois tinha sido particularmente venerado pelos nazistas não só o compositor de tantos e belos dramas musicais, como o desprezível autor de panfletos antissemitas, que a seu modo colaboraram para o surgimento e fortalecimento, na Alemanha, daquela torpe ideologia.

Zubin Metha não via por que submeter as vítimas a essa dura experiência. Afinal, as lembranças, quando vêm pela música, vêm mais intensas. É humanamente compreensível a decisão do maestro; nem é razoável duvidar de sua sinceridade, pois não lhe faltariam orquestras para reger, com excelentes e mais flexíveis contratos, em qualquer país da Europa ou nos Estados Unidos.

Contudo — sempre haverá lugar para uma incômoda adversativa nos complicados parágrafos desta vida —, uma decisão desta espécie provoca algumas questões, das quais não se pode fugir. A principal delas talvez seja a seguinte: não é possível separar o trigo da produção artística de alguém, do joio de suas equivocadas ideias políticas, morais e religiosas? Outra questão: o “cancelamento” de Wagner não seria, antes, produto de um certo ressentimento vitimista?

É sabido que Wagner era um mau-caráter. Mas foi, também, um artista que não só inovou como compositor — criou alguns dramas musicais que entraram tanto para a história da literatura como para a história da música; criou um estilo de orquestração todo seu, com rica e sábia exploração dos timbres orquestrais —, mas também influenciou a própria maneira de interpretar as obras musicais de seus predecessores e contemporâneos. Foi um divisor de águas. É um nome, portanto, que a história da música não pode ignorar, independentemente do que ele pensou fora dos muros estritamente musicais.

Homens das mais variadas colorações políticas e religiosas têm amado a música de Wagner, nos quase dois últimos séculos. Tanto quanto Hitler, o próprio Theodor Herz, nome fundamental na criação do estado israelense, também era grande admirador do mestre que compôs Parsifal. O mesmo ocorre com um dos maiores regentes vivos (e, também, grande pianista), o judeu-argentino Daniel Baremboim.

Ninguém pode garantir que o homem Richard Wagner esteja, hoje, no inferno, embora tenha feito todo o possível para abrir e pavimentar a larga estrada que a ele conduz. Que suas grandes obras, porém, tenham ido diretamente para o Céu, todos os amantes da boa música seriam unânimes em afirmar.