Da minha sala no Departamento de Literatura, na universidade em que trabalhei por quase trinta anos, era inevitável olhar de vez em quando para o belo bosque ao lado. Seus galhos ameaçavam entrar por nossas salas. O festival da passarada era permanente. Provavelmente, as grandes árvores que nos cercavam não fossem nativas, mas plantadas depois da construção dos prédios — em estilo gelidamente modernista —, porém uma bela mata nativa, anterior ao campus (fundado em 1958 por alguns professores da USP, entre os quais Antônio Candido), começava logo atrás do prédio da biblioteca. Enfim, era um campus à sombra de altas árvores, um cenário perfeito para o ócio especulativo.

A biblioteca… Era impossível olhar a mata sem também enxergar o comprido prédio da biblioteca. Pensava na vasta e inútil coleção de filosofia que ali havia, dos gregos aos contemporâneos; no bom acervo de literatura de todas as línguas e de história de todos os povos. Aqueles professores de setenta anos atrás, Antônio Candido & Cia., que nos haviam precedido no campus, eram de uma época em que ler era algo importante. Sabiam como montar uma boa biblioteca.

Infelizmente, quase já não havia, entre professores e alunos, quem procurasse aqueles velhos e bons livros, que eram sinal de uma civilização já ultrapassada que era preciso negar ou desdenhar. Os professores tinham de cuidar de suas pesquisas trienais, com boas bolsas das fundações de “amparo à pesquisa”, para as quais bastava a mais recente bibliografia do assunto, e não lhes sobrava tempo para vagabundagem intelectual; quanto aos alunos, tinham sido sequestrados pela música popular, pelo cinema, pela internet, quando não pelo sexo fácil, e lhes bastavam os livros indicados pelos professores super-ocupados.

Se todos aqueles livros permanecerem heroicamente ali, depois de passado o tsunami de barbárie que atualmente assola o planeta, quem sabe um dia volte a ser uma universidade, que cuide tanto da formação profissional quanto das coisas do espírito, mais preocupada com a aquisição da sabedoria do que com a vida prática (sem a primeira, a segunda se reduz a uma atividade quase animal, sem bússola e norte).

Já temos os recursos naturais, com belas árvores e alegres pássaros. Temos os devidos recursos espirituais, com aqueles excelentes livros. Só faltam os recursos humanos, com mentes menos preocupadas com duvidosos direitos de certas minorias e mais arejadas pelo sopro do Espírito.