[O católico Agripino Grieco (1988-1973) foi um dos maiores ensaístas literários que o Brasil teve do século XX. De vasta cultura geral e dono de uma biblioteca com mais de quarenta mil volumes, foi um impressionista no bom sentido da palavra, conseguindo mesclar à agudeza crítica uma verve humorística rara entre intelectuais (dizia-se incapaz de ler Guimarães Rosa, pois não sabia húngaro). Seus livros, se reeditados, muito contribuiriam para a onda de revisão anti-iluminista, que move atualmente toda uma geração de jovens brasileiros desconfiados do pós-modernismo que tomou conta das letras acadêmicas e do jornalismo cultural. O texto a seguir é um capítulo de sua obra São Francisco de Assis e a poesia cristã, em que trata de autores como Dante, Santa Teresa, Milton, Verlaine, Baudelaire, Péguy, Wilde, Keats, Longfellow, Alphonsus de Guimarães, entre outros].

Antero, que não aceitou os convites da natureza para alegrar-se como os comuns dos mortais, foi — todos o sabem — um fascinador irresistível. Quando moço, em Coimbra, sua barba fulva ardia como um facho de revolta.

Filósofo de estirpe germânica, triturador de verdades, afirmou-se talvez o maior homem de ideias de Portugal, sabendo criar pensamentos poéticos e não pondo palavras demais no que escrevia. Sentia e raciocinava simultaneamente, ligando o espirito geométrico ao espirito de finura, e sua obra, um misto de inspiração e de meditação, mostra que é possível filosofar em verso.

Seu pessimismo não era simplesmente doméstico ou pessoal. Não se lamentava ele de vulgares infortúnios, incidindo nesses excessos de pateticismo que degeneram em comedia. Era um pessimismo heroico, reflexo da tristeza universal, da tragedia humana.

Foi Antero, de certo modo, um budista e um estoico. Queria a abnegação diante do Irreparável e consolava-se à certeza de que a bondade é superior ao sofrimento e vence o sofrimento.

Queria o homem bom sem a ideia de prêmio. Orgulhoso de sofrer, achava que blasfemar é ser covarde e que a dor é hoje o único indicio de superioridade, a última aristocracia possível na terra. O culto do dever e da honra, coisas ridículas nos fazedores de frases melodramáticas, nobilitava-se nele.

Apesar de tudo, falasse embora amiúde no vazio do mundo e das ilusões sentimentais, ele não descreu propriamente da vida e não quis mal aos seus companheiros de servidão. Esse cético teve como poucos a paixão da caridade e os seus minguados haveres despendeu-os protegendo duas órfãs.

Quando sentiu que o destino o compelia a sacrificar alguém, sacrificou-se a si mesmo, dando-se em holocausto à Beatriz da morte, no período trágico em que sobre Portugal soprou uma rajada de desalento que conduziu ao suicídio um Soares dos Reis, um Julio César Machado e um Camillo Castello Branco.

Mas quem escreveu os quatorze versos à Virgem Santíssima é um dos maiores poetas de Nossa Senhora que o mundo já conheceu:

À VIRGEM SANTÍSSIMA – Antero de Quental

Num sonho todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…

Um místico sofrer… uma ventura
Feita só do perdão, só ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa.
E deixa-me sonhar a vida inteira!

(Agripino Grieco. São Francisco de Assis e a poesia cristã. Rio, Ariel, 1934)