Quem gosta de literatura não deve menosprezar os bons críticos literários do passado. Por exemplo, um Sainte-Beuve (1804-1869), o esquecido crítico francês do período romântico, de vasta obra, que tinha capacidade de ler e pensar por conta própria, sem as danosas metodologias de interpretação literária que hoje são moda nos cursos de Letras.

Cultura, alguém já o disse, é tudo aquilo que fica, depois que se esquecem os autores e as obras lidas. Ou seja, é o sumo que permanece vivo na memória, sobre o qual vai trabalhar a inteligência e a vontade transformará em boas obras.

O melhor método — o que praticou Sainte-Beuve — é ler bastante, com atenção e, depois, expressar-se com clareza sobre a obra lida, o que é sintoma de saúde mental e de boa educação, de respeito ao público. São as grandes lições do crítico francês, das quais o leitor brasileiro é obrigado a ficar distante, porque não o temos traduzido em nossa língua.

Uma acusação que a crítica posterior sempre lhe faz é a de não ter compreendido seus contemporâneos (Baudelaire, Balzac, Stendhal e até Flaubert). Não é bem assim. Ele só não os aceitou irrestritamente. Como pequena amostra, leia-se o que escreveu sobre Flaubert e pode valer para os flaubertianos da “modernidade”, sobretudo os praticantes do chamado nouveau roman francês, que pretendia revelar a alma dos personagens indiretamente, pela enfadonha e minuciosa descrição do ambiente em que viviam:

“Uma qualidade preciosa distingue o Sr. Gustavo Flaubert dos outros observadores mais ou menos exatos que, em nossos dias, se vangloriam de tomar consciência da realidade, o que às vezes conseguem. Flaubert tem estilo. Tem até um pouco demais, e sua pena se compraz em curiosidades e minúcias de descrição contínua que, às vezes, anulam o efeito total.  Nele, as coisas ou figuras que foram feitas para ser olhadas, são um pouco apagadas ou niveladas pelo muito relevo que ele dá aos objetos circundantes.”

Além de bom intérprete literário, Sainte-Beuve tinha erudição. Num pequeno trecho do ensaio “O que é um clássico?”, ensina as origens latinas da palavra clássico, no sentido em que o termo é utilizado em literatura e nas artes em geral:

“Um clássico, conforme a definição ordinária, é um autor antigo, já consagrado pela admiração e que tem autoridade em seu gênero. A palavra clássico, tomada neste sentido, começa a aparecer entre os Romanos. Entre eles, chamava-se propriamente de clássico, não os cidadãos das diversas classes, mas somente os da primeira, que possuíam um bom rendimento, a partir de certa quantia determinada. Todos os que possuíam um rendimento inferior eram designados pela denominação infra classem, abaixo da primeira classe. No sentido figurado, a palavra clássico se encontra empregada em Aulus-Gelle [gramático latino do século II], e aplicada aos escritores: um escritor de valor e de importância, classicus assiduusque scriptor, um escritor que conta, que tem seu lugar ao sol, que não é confundido com os proletários. Uma tal expressão supõe um bom distanciamento temporal para que haja uma escolha e a classificação dentro da literatura.”

Sainte-Beuve foi também historiador. Atesta-o sua monumental e controvertida obra Port-Royal, em vários volumes, sobre o célebre mosteiro francês (um dos palcos da heresia jansenista), que a Igreja colocou no Index assim que saíram os dois primeiros tomos.