Dentro de alguns dias celebraremos a solenidade da Epifania. Seguindo uma tradição antiga, que pratico desde a minha infância, escrevi uma carta aos Três Reis Magos. Estou ciente de que o que peço a Suas Majestades é muito difícil de conseguir e sei certamente que não o mereço. Provavelmente, vão me trazer carvão. Mas, mesmo assim, sabendo que são bons e generosos, atrevo-me a pedir estes dons valiosos.

São quatro. Quando se começa a pedir, vê-se que é impossível pedir poucos.

Primeiro, gostaria de pedir a virtude da Fé. É preciso começar pelo principal e nisso não vou ser tímido. Portanto, peço pela fé, pela Igreja e por mim. Uma fé sólida e simples. Uma fé que algumas pessoas esclarecidas, com um complexo de superioridade, diriam ser típica de um queimador de carvão (havia um professor de Teologia Moral que se recusava a responder às perguntas dos seus alunos, se estes não soubessem alemão, porque considerava que as suas perguntas não eram de um nível suficientemente elevado). Quero que os Três Reis Magos me deem a fé dos meus pais, a fé dos simples, a fé que move montanhas. E peço-lhes que deem essa fé a todos os membros da Igreja, incluindo os teólogos que conhecem alemão, e mesmo àqueles que conhecem espanhol, português, inglês e francês. Essa fé é caracterizada pela crença de que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem e, portanto, que os seus ensinamentos nunca podem ser manipulados ou adaptados às modas do momento. Essa fé que nos leva a acreditar que aquilo que o Evangelho ensina não é uma invenção destinada a consolidar a supremacia do Vaticano sobre as outras Igrejas ou, na verdade, a mitologizar um pobre carpinteiro nazareno, que não seria mais do que um homem bom, sem pretensões, e que um certo Paulo de Tarso transformou num Deus.

Em segundo lugar, peço a virtude da esperança. Preciso muito dela, porque por vezes me sinto sufocar em meio às ondas que parecem submergir o barco da Igreja em que me encontro. Uma esperança que me ajude a confiar que Deus perdoa os meus pecados e me dá a graça de não pecar mais, depois que me confesso. Uma esperança que me dê a certeza de que Deus ouve as minhas orações e é capaz de fazer milagres. E, sobretudo, uma esperança que me permita encarar a Irmã Morte nos olhos, sem medo, porque sei que não é o fim do caminho, mas um passo em direção à vida plena que me espera junto de Deus, graças à sua misericórdia divina.

Em terceiro lugar, peço a virtude da caridade. Mas uma boa espécie de caridade, não os seus substitutos. Pois essa virtude é aplicada, antes de mais nada, a Deus. Peço a Suas Majestades que me tragam o dom de arder de amor por Deus e de não desejar outra coisa, senão agradar-Lhe em tudo. Eu sei que é difícil, mas é o que peço. Além do mais, essa virtude é também dirigida ao meu próximo e, por isto, peço-lhes que ponham, em mim, um coração compassivo por todos os que sofrem; e que não haja uma só lágrima que permaneça por enxugar, nem um estômago que permaneça vazio, se estiver em meu poder enchê-lo. Peço aos Santos Reis que persuadam o Espírito Santo a regar o deserto do meu coração e a acendê-lo com o fogo do Seu amor. Faço minha aquela oração de Santo Agostinho: “Dai-me amor (…) para que, dando-me amor, possais alegrar-Vos comigo”.

Finalmente, e eu sei que se trata de um abuso, mas aqui vai: peço a virtude da humildade. Trata-se de uma virtude com muitas nuances, mas quero pedir a Suas Majestades que me deem, acima de tudo, um aspecto dessa humildade, que é aceitar que não sou Deus e que, portanto, tenho de confiar Nele, mesmo que não compreenda os Seus planos. Em suma, o que peço é que me seja dada a humildade da Santíssima Virgem Maria, para poder dizer “confio”, mesmo que me pareça que o Todo-Poderoso está tirando uma longa sesta, enquanto a Igreja parece afundar-se.

Confio que os Três Reis Magos não se aborrecerão com a natureza exagerada das minhas pretensões, especialmente porque sei que só mereço carvão. Mas é preciso continuar sonhando, principalmente hoje em dia.