Quando o assunto é Manuel Bandeira, pode-se falar nalgumas influências que teria sofrido o poeta — o Romantismo, o parnasianismo, o pós-simbolismo “crepuscular”, o modernismo, tudo bem mexido e regido pela batuta neoclássica do autor. Há tudo isso e mais alguma coisa (como, por exemplo, as canções de inspiração medieval). Houve, porém, um escritor cuja visão de mundo pessimista o marcou profundamente, e nem era propriamente um poeta, ao menos no sentido estrito da palavra: Machado de Assis.   

O poeta tinha vinte e dois anos quando morreu Machado. E o grande ficcionista e o grande poeta se encontraram algumas vezes nesse mundo, pessoalmente ou por outras vias. Foram até coautores num conto, provavelmente o último conto escrito pelo criador do Dom Casmurro.

O primeiro encontro foi quando o pai de Bandeira — que morava no Rio e era colega de Machado no Ministério da Viação — levou uns versos do filho ainda menino para que o escritor lesse e julgasse. Machado gostou, achou “as rimas bem ligadas ao assunto”.

Depois, se encontraram num bonde do Largo do Machado, também no Rio. Bandeira tinha quatorze anos quando se sentou ao lado do escritor que, parando com a leitura do jornal A Notícia, puxou conversa com o adolescente.

Pelas mãos do crítico e professor João Ribeiro, que ensinava no Colégio Pedro Segundo, Bandeira continuaria se encontrando com o escritor, agora através de suas obras. Ficou fã, desde o início, daquele estilo elegante, “correto e natural, não chamando atenção pelo desalinho ou pela riqueza, escapando da rigidez e, sobretudo, da solenidade”, características da elegância literária segundo o escritor espanhol Azorin.

Ficou, para sempre, marcado pela desencantada visão de mundo do autor de Memorial de Aires que, sem nenhum tom enfático, de emoção contida e até zombada, conseguiu criar algumas dezenas de narrativas curtas cheias de finuras nas observações, segura condução da história e da trama, bom recorte psicológico dos personagens, flagrados na sua contradição mais íntima e regulados por leis de comportamento nem sempre claras, apesar da aparente clarté com que os apresenta nos contos.

Bandeira nunca se libertou da sombra agnóstica de Machado — sombra da qual brota uma estranha luz, a falsa luz dos céticos, que negam toda a possibilidade de conhecimento da verdade, exceto essa “verdade” em que fundamentam suas teses.

Houve, na história desses encontros do jovem poeta com o velho escritor, um que merece destaque especial. Tudo começou quando Bandeira, ainda moço, foi levado ao Hospital dos Estrangeiros, no Rio, pelas contingências da tuberculose. Ali ouviu um relato feito por um oficial da marinha inglesa, também hospitalizado, que contou como tinha sofrido um ferimento na perna, num prédio em chamas na capital uruguaia.

O poeta gostou da história e contou-a a um amigo de seu pai, o engenheiro Abel Ferreira de Matos, que também era amigo de Machado de Assis. Abel repassou a narrativa a Machado, que gostou do assunto e a transformou no conto “O Incêndio”, publicado pelo almanaque Brasileiro Garnier, em 1906, dois anos antes de morrer.

A história é a seguinte: o oficial da marinha inglesa desceu do navio, no porto de Montevidéu, e resolveu dar um giro pela cidade, quando viu um ajuntamento de pessoas diante de um sobrado que ardia em chamas, envolto em fumaça. Notou que, no segundo andar, detrás de uma janela, uma mulher parecia hesitar entre morrer queimada e atirar-se na rua. O oficial, heroicamente, decidiu destacar-se da multidão atônita, entrar na casa consumida pelo fogo e subir ao segundo andar. Quando já estava no aposento, descobriu que a moça era… um manequim de costura.

Desceu imediatamente, tentando agora salvar a própria vida. Ao passar pela porta de entrada, foi atingido por uma trave de porta, que se desprendeu e lhe feriu uma das pernas. Além disso, foi quase preso pelos bombeiros, que o tomaram por assaltante. Machado, com humor bem machadiano, termina o conto afirmando que o desiludido herói foi “mandado a Calcutá, onde descansou da perna quebrada e do desejo de salvar ninguém”.

Quem não se lembrará do episódio de Dom Quixote tentando investir contra os moinhos de vento, acreditando tratar-se de gigantes? Assim foi quase toda a obra de Machado de Assis: a militância de um cético na missão de mostrar que tudo nesta vida é ilusão, inclusive a virtude da generosidade.

De certo modo, assim também foi boa parte da poesia de Manuel Bandeira, o poeta das estrelas frias e inacessíveis, luzindo sempre fora do alcance do ser humano. Pelo menos dos seres humanos que não conseguem ver, nas doenças mais graves, nada além do seu aspecto puramente natural, interpretando-as como expressão da indiferença divina.