[Alphonsus de Guimaraens Filho, nascido em 1918, é filho do grande poeta mineiro Alphonsus de Guimaraens. Pertence, pela idade, à chamada Geração de 45. Morreu em 2008, aos noventa anos. Era católico].

Nem sei se blasfemei. Se blasfemei,
Deus passe um pano sobre tanto sujo.
Sinto-me exausto numa torre cujo
Vértice tento atingir e não verei.

Nem sei se blasfemei. Apenas sei
Que muita vez suponho que em vão rujo,
Que me rebelo eu, um caramujo
Que nem minha própria casa salvarei.

Nem sei, nem sei se blasfemei. Apenas,
Olhando agora para trás, concluo
Que eu devia cantar ou ter cantado

Não os meus males só, não minhas penas,
Mas a beleza em que já me diluo,
Em que me integro, Deus seja louvado.

*

Louvado seja Deus! Seja louvado
Pelos que não merecem nem louvá-Lo.
E, de louvado, passe a ser o halo
De louvação por sobre o exasperado.

E de louvado passe a ser, e a dá-lo,
Um resplendor por sobre o apagado
e cego humano amor alucinado
capaz (tão triste amor!) de desprezá-Lo.

De desprezá-Lo? De esquecê-Lo, digo.
De negá-Lo também. E, sem suporte
Qualquer, julgar-se pleno e desbordante

De certeza e de paz, seu próprio abrigo.
Louvado seja Deus, tempo adiante.
Louvado em nossa vida. E em nossa morte.

(Alphonsus de Guimaraes Filho. Discurso no deserto. Rio, Cátedra/INL, 1982).