Seis meses passados sobre
A angélica anunciação
Do nascimento de João,
Santo filho de Isabel,
Baixou o arcanjo Gabriel
À Galileia e na casa
Do carpinteiro José
Entrou e diante da Virgem
Desposada com
o varão
— Maria ela se chamava —
Curvou-se em genuflexão.
Dizendo com voz suave
Mais que a aura da manhã: “Ave,
Maria cheia de graça!
Nosso Senhor é contigo,
Tu bendita entre as mulheres”.
E ela, vendo-o assim, turbou-se
Muito de suas palavras.
Mas o anjo, tranquilizando-a,
Falou: “Maria, não temas:
Deus escolheu-te, a mais pura
Entre todas as mulheres,
Para um filho conceberes
No teu ventre e, dado à luz,
O chamarás de Jesus;
O santo Deus fá-lo-á grande,
Dar-lhe-á o trono de Davi,
Seu reino não terá fim”.
E disse Maria ao anjo:
“Como pode ser assim,
Se não conheço varão?”
E, respondendo o anjo, disse-lhe:
“Descerá sobre ti o Espírito
Santo e a virtude do Altíssimo
Te cobrirá com sua sombra;
Pelo que também o Santo
Que de ti há de nascer,
Filho de Deus terá nome,
Com ser filho de mulher,
Pois tua prima Isabel
Não concebeu na velhice,
Sendo estéril? A Deus nada
É impossível”. O anjo disse
E afastou-se de Maria.
Como no extremo horizonte
A primeira, desmaiada
Celagem da madrugada,
Duas rosas transluziram
Nas faces da Virgem pura:
Já era Jesus no seu sangue,
Antes de, infinito Espírito
Mudado em corpo finito,
Se fixar em forma humana
Na matriz santificada.

(Manuel Bandeira. Poesia completa e prosa. Rio, Aguillar, 1986, p. 317)