Os cadernos culturais dos jornais brasileiros nunca estiveram tão pobres. São os desertos da inteligência nacional. Uma aridez total. Só vidas secas.

Quando folheio minha coleção do velho “Suplemento Literário” do Estadão, e ali vejo aqueles mestres do ensaísmo nacional, muitos sem nenhuma espécie de vínculo com a universidade, pergunto-me o que aconteceu.

Creio que só há uma resposta: quase ninguém mais leva a sério a literatura.

Sério no sentido que lhe atribui o escritor Mario Vargas Llosa, agnóstico, em sua coletânea de ensaios A verdade das mentiras, sobre a ficção do século XX. O posfácio é brilhante e quase sempre convincente. Segundo Llosa, o romance é a forma mais perfeita de conhecimento: nada do que é humano é estranho ao gênero criado por Rabelais e Cervantes.

Hoje, a literatura não passa de reles bijuteria ideológico-cultural. E pensar que ela já foi, até meados do século XX, uma das coisas mais sérias do mundo…

Séria ao ponto de um Toynbee achar que a literatura e as artes seriam a solução para preencher o ócio e acabar com o tédio das futuras sociedades automatizadas. Uma arte sem finalidade comercial, mas que não caísse no esteticismo, não caísse na tentação de fazer de si mesma o seu próprio fim. Nada de arte pela arte.

A tradicional ligação da arte com a religião, para o historiador inglês, era prova de que os artistas sempre necessitaram de algo mais, além da pura exibição de técnica. Acreditava ele que a verdadeira meta do homem não seria a arte, mas a religião.

A arte do futuro — se houver futuro, se a batalha do Armagedom não ocorrer nas próximas décadas… — seria de novo uma arte dominada por inquietações metafísicas.

A humanidade terá direito a novos Dante, novos Bach, novos Michelangelo?

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