No final dos anos 80, o filósofo judeu nascido na Polónia, Zygmunt Bauman, começou a desenvolver a tese de que a sociedade de hoje já não era sólida, mas líquida, devido às frequentes mudanças que ocorreram no seu interior, o que exigia uma adaptação contínua. Se foi isso que Bauman escreveu há 30 anos atrás, hoje o seu pensamento está ultrapassado e já não estamos numa sociedade líquida e flutuante, mas uma sociedade gasosa, sem qualquer ponto de apoio.

Foi o que reconheceu o Papa, na audiência desta quarta-feira. Estamos permanentemente no ar. Além disso, os gases podem ser bons (como o ar que respiramos, quando não está poluído), mas podem ser venenosos (como a sociedade de hoje, incluindo parte da Igreja).

Exemplo: um adolescente americano foi expulso da escola por ter ousado dizer, a um colega de escola, em conversa no ônibus escolar, que acreditava que o casamento era apenas a união de um homem e uma mulher. Foi denunciado por ter tal opinião numa conversa de ônibus e acabou por ser expulso. Esta sociedade, que afirma ser muito tolerante, não aceita de forma alguma que alguém possa discordar dos novos dogmas que ela própria criou.

Outro exemplo, que faz fronteira com o ridículo. Na Alemanha, o presidente da Academia da Língua Alemã — o equivalente da Academia Real da Língua Espanhola — também foi expulso, mas desta vez da Igreja Católica. Perante as mudanças dos bispos, na liturgia, para acomodar as exigências LGBT, o maior especialista linguístico da Alemanha, de acordo com a sua perícia, disse que não eram tecnicamente corretas. Só por isso, foi-lhe dito que não podia pagar o imposto religioso, o que equivale a declará-lo automaticamente apóstata contra a sua vontade. Quando a vítima pediu para ser autorizada a pagar o imposto noutra diocese, para que pudesse permanecer católica, foi-lhe dito que não podia. Chegamos a este ponto de absurdidade.

Mais um exemplo: a escritora J.K. Rowling, autora dos livros do Harry Potter, não foi autorizada a assistir à comemoração do 20º aniversário do lançamento do primeiro filme da saga, porque ousou dizer que era a biologia, e não o desejo, que determinava se se era homem ou mulher. Mas isto não é surpreendente, considerando que Shakespeare também está sob a lupa dos censores, porque o acusam de ser machista e racista.

Trata-se do “cancelamento cultural”, que, tal como aqueles censores do século XVII que pintaram modestos véus sobre os nus de Miguel Ângelo, estão agora suprimindo qualquer vestígio de argumento politicamente incorreto, independentemente da sua origem.

Graças a Deus, ainda há alguma sanidade em alguns lugares. Na França, por exemplo, o editor de uma revista católica foi processado por incluir um texto que nos recordava os ensinamentos da Igreja sobre o casamento. O tribunal absolveu-o, salientando que ainda não é crime pensar no casamento como a união de um homem com uma mulher. Ou na Colômbia, onde o Tribunal Constitucional teve de intervir contra a decisão de um tribunal que tinha proibido um vídeo, no youtube, em que se dizia que Deus criou o homem e a mulher para estarem um com o outro (embora, neste caso, a decisão se tenha baseado mais em argumentos processuais do que na proteção da liberdade de expressão).

Lembro-me quando, há apenas alguns anos, nós católicos fomos acusados de ser intolerantes porque éramos contra o aborto, e foi-nos dito: se não o queres fazer, não o faças, mas permite que outros o façam, se o quiserem fazer. Agora, aqueles que nos chamaram de intolerantes porque defendemos a vida dos inocentes, nem sequer nos deixam dizer uma única palavra; e querem lançar um Shakespeare, e, com ele, todos aqueles que ousam expressar uma opinião diferente da sua, no meio da fogueira das suas vaidades.

Uma sociedade, onde a liberdade de expressão é perseguida, torna-se verdadeiramente uma sociedade gasosa — mas de gases venenosos.