Os bispos americanos, quase por unanimidade — 222 votos a favor, oito contra e quatro abstenções — aprovaram o documento há muito esperado sobre a Eucaristia. A decisão de abordar esta questão foi tomada principalmente devido à controvérsia causada pela comunhão de políticos do Partido Democrata, que eram abertamente a favor do aborto. Entre eles, mas não só, o próprio presidente do país, Joe Biden. Embora a maioria do episcopado fosse sempre a favor do documento, houve muitos que pediram que a sua resolução fosse deixada à iniciativa de cada bispo. Agora, finalmente, o documento foi publicado e o resultado da votação foi surpreendente, com quase todos os bispos a favor do mesmo.

Este resultado diz-nos, logo desde o início, que se trata de um documento de consenso. Se um número significativo, embora minoritário, se opôs à discussão das condições para receber a comunhão e agora, praticamente, todos aprovaram o texto, isto significa que todos tiveram também de ceder alguma coisa nas suas posições. Os documentos de consenso podem não satisfazer plenamente a todos, mas têm o valor de mostrar aos fiéis a unidade da hierarquia católica. O importante, na sua avaliação, é ver se é dito o suficiente, mesmo que nem tudo seja dito. Além disso, tendo em conta que, no fim de tudo, caberia a cada bispo tomar as decisões para a sua diocese, a unanimidade alcançada obriga a todos eles.

Será que o documento dos bispos norte-americanos reflete o essencial sobre a recepção da Eucaristia? Acredito que sim, e em abundância. Insiste em três pontos essenciais: a presença real do Senhor nela, a necessidade de estar na graça de Deus para a receber (porque, caso contrário, comete-se um sacrilégio), e a obrigação dos políticos de estarem em comunhão com os ensinamentos da Igreja — não só sobre a questão do aborto, mas também sobre isso — para poder receber o Corpo e Sangue de Cristo.

A exigência de comungar na graça vai, além disso, contra a afirmação de que a comunhão não deve ser algo oferecido apenas a uns poucos privilegiados. Aqueles que defendem esta opinião parecem acreditar que estar em estado de graça é algo acessível apenas a uma elite da elite e que, portanto, é possível receber a comunhão em pecado mortal. Felizmente, os bispos dos Estados Unidos ignoraram isto e insistiram que aquele que comunga em pecado comete sacrilégio.

Será que os políticos pró-aborto terão isto em conta e deixarão de comungar, depois destes avisos que apontam diretamente para eles, sem os nomear? Não penso assim, porque, infelizmente, comungar tornou-se uma questão política, como o Presidente Biden deixou claro quando, após a sua longa entrevista com o Papa, disse que o Papa lhe tinha dito que era um “bom católico” e que podia comungar; se lhe tinha dito, era seu dever não revelar o conteúdo de uma conversa privada; e, se ele falou sobre isso, foi precisamente por razões políticas.

Mas há outra questão, a ela relacionada, que os bispos americanos devem abordar o mais rapidamente possível, porque é urgente. Na grande maioria das paróquias daquele país, o serviço de confissão aos fiéis está reduzido a uma hora nas tardes de sábado; na Quaresma, vários padres juntam-se para percorrer as paróquias num determinado dia para ouvir confissões, mas, no resto do ano, há apenas essa possibilidade mínima de acesso à confissão.

Contudo, a quase maioria dos que vão à missa recebem a comunhão todos os domingos. Ou são santos, ou muitos deles estão recebendo comunhão em pecado mortal. É imperativo, portanto, que a consciência dos fiéis seja melhor formada sobre o que é bom e o que é mau, e que o acesso à confissão não seja um obstáculo quase intransponível.

Os padres americanos precisam ficar mais horas no confessionário e os fiéis precisam de ser consciencializados de que não podem ir para a comunhão, como é óbvio, se não se estiverem na graça de Deus. Viver na graça e, como consequência, receber a comunhão na graça deve ser o objetivo de todos os católicos. Para isto, é necessário recorrer aos sacramentos, especialmente ao sacramento da confissão. Sem mais oportunidades de confissão, um documento como o aprovado pelos bispos americanos pode permanecer retórica pura, palavras que não levam a lugar nenhum.