Ao comentar o Evangelho de um dos domingos de novembro, em que um mestre da Lei se aproxima de Jesus e lhe pergunta: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” — e Jesus lhe responde que é o amor a Deus —, um sacerdote espanhol, padre Santiago Martín, mostrou com clareza como o amor ao próximo, se desligado das motivações religiosas, se transforma em retórica vazia.

Talvez se possa ir um pouco além e dizer que, se o amor a Deus não é prioritário, está aberto e pavimentado o caminho para a instrumentalização ideológica. Poderíamos, livremente, escolher quem é digno ou não da nossa caridade.

Um exemplo dessa caridade seletiva ocorreu há poucos dias. No finados de 2021, um católico participava da Missa numa das principais cidades do país. No final da homilia, depois de referir-se aos mortos da covid e com toda justiça homenageá-los, ouviu do celebrante que desejava a morte do Presidente da República, desejo aliás fartamente expresso nas redes sociais por quem não aprecia o atual chefe de Estado brasileiro.

Terminada a Missa, o fiel se encontrou com o padre e mostrou sua indignação com aquelas palavras, mas não mereceu nenhuma atenção; ao contrário, o sacerdote saiu reafirmando que o presidente devia mesmo “levar um tiro na cabeça”.

Ninguém é obrigado a apreciar o presidente Bolsonaro, sendo possível aprovar ou não a forma como conduziu o país, durante os meses mais graves da pandemia. Há inúmeros e até misteriosos fatores por trás das opiniões humanas. Seja lá quem for o presidente — um genocida, um indeciso, um corajoso, um realista —, o cristão não tem o direito de escolher entre amá-lo ou odiá-lo. O mandamento de Jesus é bem claro: amai vossos inimigos. Se o padre é desses que creem que o Bolsonaro é de fato um genocida, seria mais católico, depois de expressa essa opinião (pois que não passa de opinião), pedir justiça nos tribunais competentes e orações pela sua conversão.

A consequência dessa caridade voluntarista, produto da liberdade de escolher-se quem seja ou não digno de amor, é sempre desastrosa: elimina-se toda a possibilidade de diálogo civilizado com quem pensa ou age diferente de nós, ou seja, nossos adversários de ideias e atitudes.

A atual “cultura do cancelamento” é expressão dessa errônea concepção do amor cristão, desse enlouquecimento da caridade, para falar à maneira de Chesterton, para quem as virtudes enlouquecem, se compreendidas e praticadas fora da Igreja Católica.

É certo que o fechamento de canais, no youtube, com a vaga alegação de disseminarem fake news, tem sua raiz na guerra política do progressismo versus conservadorismo, mas acaba por condicionar as pessoas mais simples a se retraírem, de maneira até violenta, diante de tudo o que é contrário a seu modo de pensar.

O inimigo cultural deixou de ser alguém que deve ser convencido da opinião oposta; ou alguém por quem se deve rezar e converter. Agora, não passa de um obstáculo a ser sumariamente eliminado. O amor ao próximo, se não for condicionado pelo amor a Deus, transforma-se facilmente em filantropia idolátrica, em antropolatria. Ou em cancelamento do próximo, se o próximo não rezar pela nossa cartilha. É o pleno cumprimento do principal mandamento do diabo: “Odiai-vos uns aos outros”.