“A primeira coisa a fazer com um poema ou canção é simplesmente memorizá-los.” (Denis Quinn)

“O verso sempre nos lembra que ele já foi uma arte oral, antes de ser arte escrita; recorda-nos que já foi canto”. (Jorge Luis Borges)

Volto à poesia. E não me cansarei de voltar, aviso-lhes. Se escrevo sobre isso repetidamente, é para tentar transmitir a vocês a importância de uma visão poética do mundo, a relevância de sua ausência e, igualmente, a fatalidade de seu abandono. Um abandono que hoje sofremos e que pode ser um dos fatores da nossa desorientação e desamparo. Se eu fosse poeta, se fosse abençoado pelas musas, escreveria incessantemente versos a elas, rogando-lhes que os recitassem em voz alta. Mas eu tenho que me contentar com o que foi dado.

Hoje poderá parecer um fato um tanto curioso e até chocante, mas a primeira forma de contar histórias era poesia e não a narrativa. Com ela, o homem teve à sua disposição um instrumento único para tentar se aproximar da realidade tal como ela é, em seu mistério oculto.

Como no princípio era o ouvido, a Palavra não poderia ser escrita, mas falada. A recitação, apoiada na memória, foi o meio original de transmissão de conhecimentos. É a isso a que se referem as palavras de C. S. Lewis quando afirma que “toda poesia é oral, pronunciada pela voz, não lida e tampouco escrita. E toda poesia é musical”. Borges se refere a isso na frase mencionada acima: os poemas nos lembram, sempre, que eles eram inicialmente cânticos.

Mas chegou o dia em que o homem gutenberguiano trocou a audição pela visão e então tudo começou a mudar. Platão e Sócrates haviam alertado sobre isso muito antes (Fedro, 370 AC), em uma profecia que hoje ressoa muito atual:

“Isto, com efeito, produzirá na alma de quem aprende o esquecimento, devido ao descuido da memória, pois, confiando na escrita, lembravam valendo-se de caracteres alheios, não a partir do próprio interior e de si próprios. (…). É a aparência de sabedoria, não sua verdade, o que buscas para seus alunos”.

C. S. Lewis também nos esclareceu sobre essa questão em dois de seus livros, The Allegory of Love (1936) e A Preface to Paradise Lost (1942). Nessas obras, a partir de sua posição de erudito, ele explica que a poesia alegórica e épica foram, desde o início, as formas predominantes de contar histórias no Ocidente, e traça seu desenvolvimento ao longo do tempo, dos gregos ao Renascimento, começando com a Ilíada de Homero e terminando com o Paraíso perdido de Milton e O progresso do peregrino, de Bunyan. As obras citadas de Milton e Bunyan, publicadas em 1667 e 1678, respectivamente, foram, segundo Lewis, as duas últimas epopeias alegóricas escritas em inglês. Com a publicação desses dois grandes poemas, a cultura ocidental começou a abandonar sua forma ancestral de contar histórias. As formas antigas foram morrendo aos poucos, mas a sede do homem por histórias não cessou. O teatro de Shakespeare e a prosa de Cervantes substituíram a poesia alegórica e épica e, neste primeiro momento, parecia que nada se havia perdido. Mas foi uma miragem, como vemos hoje. Borges afirma isso no prólogo de seu livro de versos, La rosa profunda (1975):

“A literatura começa com o verso e pode levar séculos até perceber a possibilidade da prosa. Depois de quatrocentos anos, os anglo-saxões deixaram-nos uma poesia não raro admirável, e uma prosa apenas explícita. A palavra teria sido no início um símbolo mágico, que a usura do tempo iria desgastar. A missão do poeta seria devolver à palavra, ainda que parcialmente, sua primitiva e agora oculta virtude. Cada verso teria dois deveres: comunicar um fato preciso e nos tocar fisicamente, como a proximidade do mar”.

Dessa forma, o homem começou a abandonar a poesia e abraçar a retórica, a narrativa histórica, os fatos e os dados. Ele deixou o mito sem perceber que estava entregando-se às frias informações. E da palavra falada passou para a escrita, e do signo gramatical passou para o numérico. A palavra, inclusive a escrita, foi encurralada, sendo substituída, quase imperceptivelmente, mas incessantemente, por dados. O romance e a história escrita começaram sua era, embora, em vez de servir, tenham vindo para reinar, e a voz e a memória se foram apagando. E a forma se afastou do fundo, começando a se dissolver em um vasto mar de confusão, e a verdadeira sabedoria foi se desvanecendo, lenta e inexoravelmente, como a luz de uma vela.

No entanto, a forma natural de comunicação de todo homem é e sempre foi a palavra oral. Em todas as culturas existiram pessoas que se encarregaram de realizar esta transmissão, combinando o verbo e a memória: rapsódias gregas, bardos celtas, poetas árabes, guslares russos, ritmistas tuaregues, menestréis medievais e meturgemanes hebreus [recitadores], entre os quais, segundo o padre Castellani, se encontrava nosso Senhor.

Nunca se perguntou por que Ele, o Logos, a Palavra, não deixou nenhum livro escrito? No entanto, disse-nos: “Os céus e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão.” Ele optou pela poesia, pela oralidade musical da parábola e do aforismo, numa linguagem ardente, imaginativa e poderosa. É impossível não sentir o poético de suas palavras, apesar de terem sido traduzidas, transcritas e obrigadas a permanecer espartilhadas em uma retórica narrativa, perdendo assim parte de sua vivacidade poética. Palavras que, como diz o escritor americano Joseph Sobran, “têm um poder único que as diferencia de todas as outras palavras, meramente humanas. Mesmo removidas de sua língua original, elas ainda nos penetram e governam nossas consciências. Mudaram o mundo profundamente. Ele não apenas fez milagres, mas falou milagres. As palavras que lemos de sua boca são milagres. Elas têm um efeito sobrenatural”.

Talvez tenha sido assim, devido à nossa incapacidade de viver permanentemente no poético, que só podemos beber em pequenos goles, através de um mero reflexo (per speculum…), mediante a transformação do poema em narrativa, ou através do impacto do extraordinário e do insólito da natureza criada. Sabendo disso, Cristo instaurou e deu exemplo de uma vida sacramental, de ensino pela palavra e pelo comportamento. Foi nessa combinação de atos, gestos e palavras, junto com a faculdade da memória e da imaginação, que Cristo instituiu o seu Evangelho, e não no relato sequencial de acontecimentos escritos em livros. Segundo o comentário de Gómez Dávila, se poderia dizer que “Cristo, ao morrer, não deixou documentos, mas discípulos”.

A esse respeito, volto a Sobran, que escreve: “A vida da Igreja, conforme prescrita por Cristo, era sacramental. Ele nunca disse aos apóstolos para escreverem livros; disse-lhes que batizassem, pregassem o Evangelho, perdoassem os pecados e comemorassem o momento culminante de seu ministério, antes da Paixão: a Última Ceia. Delegou-lhes sua própria autoridade e deixou muitas coisas a critério deles, sob a orientação do Espírito Santo. É por isso que a imaginação cristã está estreitamente unida à palavra vibrante, oscilando entre o simbólico e o sacramental.

Acontece que, se negligenciarmos essa capacidade limitada de captar o poético do mundo, a perderemos inevitavelmente. E não devemos deixar que isso ocorra. C. S. Lewis fala sobre sua importância:

«A poesia visa produzir algo mais parecido à visão do que à ação. Mas a visão, nesse sentido, inclui as paixões. Certas coisas, se não forem vistas como encantadoras ou desagradáveis, não serão vistas de forma alguma (…). Na retórica, a imaginação está presente por causa da paixão, enquanto, na poesia, a paixão está presente por causa da imaginação e, portanto, a longo prazo, por causa da sabedoria, da saúde espiritual, da retidão e da riqueza da plena resposta do homem ao mundo”.

Som e ritmo, aquela música típica da poesia, ganha vida quando recitada e declamada em voz alta, de memória. Borges nos diz: «Um bom verso não permite que seja lido em voz baixa, nem em silêncio. Se pudermos fazer isso, não é um bom verso: o verso requer pronúncia”. Uma pronúncia que nos oferece uma melodia, que nos envolve em uma canção.

O filósofo católico Peter Kreeft, falando sobre a beleza de uma obra como O Senhor dos Anéis (1954/55), escreve a respeito:

“O Senhor dos Anéis está cheio de música, cheio de música. Em um de seus índices, ao final do livro, são listados canções ou poemas. Nomes próprios, é claro. Lugares, certamente. Mas são canções ou poemas? No entanto, são tantos, tantos, que é necessário um índice. Os hobbits cantam hinos a El-Beret, canções para caminhadas e banhos. Como Tolkien, Bombadil é um escritor de prosa cheio de poesia e música. Peter Beagle, na introdução de “A Tolkien Reader”, o chama de ‘um escritor cuja própria prosa está repleta de verdadeira poesia.’ Eu acredito que a música é uma parte essencial do charme élfico. Quando a Comunidade entra em Lothlórien, Sam diz: ‘Sinto como se estivesse dentro de uma canção, se é que se entende o que quero dizer’. E é assim que nos sentimos, quando nos aprofundamos neste livro.”

Disse o que eu desejaria dizer. É assim que quero que minhas filhas se sintam: como se estivessem dentro de uma canção. Você também não gostariam?

Mas, hoje em dia, nem em casa, nem na escola, nem mesmo nas nossas igrejas, educa-se a sensibilidade poética, e muito menos ainda na televisão, no cinema ou nas redes sociais. Recitar em voz alta e aprender poemas e canções antigas é algo que não está mais na moda. É-nos pedido, ou melhor, exigido até que não cuidemos da memória e da recitação, renunciando à beleza. A rudez com que essa deserção é realizada se soma à barbárie com que tenta preencher o vazio resultante. Essas recitações, esses esforços mnemônicos com a rima e o canto são, talvez, um dos últimos vínculos que temos com o mundo da tradição oral. Uma ponte pela qual poderíamos caminhar em direção à nossa própria identidade, que a força da imprensa não conseguiu derrubar, mas que a sedução da imagem já está derrubando.

Talvez deva ser assim mesmo. É possível que, como disse Gómez Dávila, a literatura tenha de passar por três épocas, “primeiro sonho, depois inventário, finalmente confissão”, e que hoje estejamos no “inventário”. Mas eu resisto a admiti-lo. O “sonho” da primeira etapa não deve ser perdido. Ainda há esperança, ainda podemos trazer a poesia para nossas vidas e de nossos filhos.

O professor Anthony Esolen diz isso muito melhor:

“‘ Quem quiser salvar sua vida deve perdê-la “, diz o Senhor, e essa é uma lei do próprio ser. É a lei da perigosa vida da beleza e do amor. As artes podem nos atrair para essa vida e ajudar a sairmos do mecanicismo moderno do trabalho pelo trabalho. Não podemos fazer nenhuma aposta segura sobre onde a leitura de “O paraíso perdido” nos poderia levar. Se esse livro for lido com espírito de festa, recebendo-o como uma dádiva à qual não se tem direito, sua beleza, sempre gratuita e transbordante para além do estreito mundo da utilidade, pode nos mudar para sempre. Se entrarmos naquele templo, podemos aprender a tirar os sapatos, a nos libertar do freio em nossas costas. Podemos ver coisas que nossos senhores não gostariam que víssemos (pois, então, já seriam nossos senhores). Podemos inclinar o ouvido e o coração para uma música que eles tentaram abafar. Podemos, até mesmo, captar a sugestão fugaz, como uma voz leve e quieta no topo de uma montanha, do Amor que move o sol e as estrelas”.

No entanto, não se espere receber muita ajuda nisso que será um retorno ingrato e difícil. Enfim, vamos voltar à poesia! Vamos tomá-la de volta! Recuperemos a sua voz! E, como disse o filósofo russo Pavel Florensky, nunca deixemos de ler belos poemas em voz alta.

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