Estão aí, cada vez mais discordantes, as duas grandes forças políticas — já com dimensão histórica — que lutam por predominar e conduzir o barco do velho mundo, agora sem porteira: o globalismo e o… antiglobalismo.

O primeiro termo da contenda já diz, por si mesmo, o que significa: o abandono da ideia de soberania nacional e a adoção progressiva de um internacionalismo político de origem maçônica (que acabaria resultando em uma espécie de governo planetário), sob o pretexto de salvar um planeta ameaçado pela superpopulação e a degradação ambiental. E tudo isto capitaneado por certa elite financeira, empresarial, intelectual e política, espalhada pelas Américas, Europa e parte da Ásia.

O mesmo não ocorre com o outro termo, antiglobalismo, que é mais uma frente ampla contrária a um possível governo planetário, do que um preciso e sistemático conjunto de ideias políticas e culturais. Abrange defensores do livre mercado, como conservadores e liberais, que entre si não concordam em muitos aspectos da vida moral (como o aborto e casamento gay), mas convergem na ideia de pátria e manutenção da soberania de seus povos. O próprio governo russo, com seu nacionalismo fascistoide — ao qual não faltam ambições imperialistas —, e sua crítica à política ocidental pró-aborto e a ideologia de gênero, se inclui de algum modo e provisoriamente nessa frente ampla, que também não deixa de fora algumas correntes de esquerda europeia antiglobalistas.

De certo modo, o globalismo também seria uma espécie de “frente”, incluindo “liberais” (verdadeiramente liberados em questões morais, mas de perfil social-democrata na concepção do papel do estado) e esquerdistas de velho corte internacionalista (mais estatizantes e igualmente “liberados” no aspecto moral), ligados pelo denominador-comum do não-soberanismo e do anticonservadorismo. Bom exemplo dessa união, sempre estratégica, ocorre debaixo de nossas fuças, no Brasil atual.  

Quem vai ganhar essa guerra: os globalistas, que pretendem homogeneizar o mundo, ou os soberanistas que, sem negar o fato geopolítico e econômico da globalização, acreditam que a nação não pode perder seu caráter unitário e independente?

Os segundos têm por fundamento “cultural” religiões tradicionais, de matriz transcendente, e ainda reconhecem a validade da “lei natural” no ordenamento jurídico-moral da sociedade; os primeiros, arquitetam e lentamente constroem uma nova religiosidade imanentista, algo panteística, centrada no homem como ponta-de-lança de um evolucionismo cósmico e histórico, cientificista do ponto de vista do conhecimento, personalista e relativista do ponto de vista moral.

O político conservador francês Jean-Frédéric Poisson lembrou, recentemente, o que disse certa vez João Paulo II sobre o assunto. Em seu discurso à Unesco em 1980, o papa polaco

“…viu claramente qual era a escolha que estava disponível para todos nós: ou defendemos o mundialismo, que é um materialismo e um consumismo enganosamente universal e verdadeiramente polemogênico [gerador de conflitos], ou buscamos um senso de dignidade humana e redescobrimos que, para cada sociedade, existe um bem comum, uma cultura nacional que deve ser protegida. “As nações são os grandes instrutores dos povos”, disse João-Paulo II em uma fórmula inesquecível. Quem defende seu povo, luta à sua maneira pela civilização como um todo.

Um cristão, portanto, não pode omitir-se e deve participar dessa contenda, na medida de suas forças e de seus meios. Mas uma coisa é certa: o futuro do mundo é incerto.

Qual futuro, todavia, não é incerto?