[Manuel Bandeira organizou e prefaciou a edição da “poesia completa” do poeta católico brasileiro José Albano. A edição saiu em 1948, pela Pongetti, sob o título de Rimas. O texto a seguir é o prefácio de Bandeira na íntegra].

José de Abreu Albano nasceu em Fortaleza a 12 de abril de 1882. Era filho do negociante José Albano Filho e de D. Maria de Abreu Albano; neto, pelo lado paterno, de José Francisco da Silva Albano e de D. Maria Liberalina da Silva Albano, Barões de Aratanha, e, pelo materno, de Ildefonso José de Abreu e de D. Josefa Zulmira de Abreu.

Foi aluno do Seminário Episcopal de Fortaleza em 1892 e 1893. Neste último ano mandou-o o pai para a Europa, onde completou a sua educação de humanidades na Inglaterra (Stonyhurst College, dos jesuítas, em Blackburn, 1893 e 1894), na Áustria (Colégio Stella Matutina, também dos jesuítas, em Feldkirch, 1894-1897) e na França (Colégio dos Irmãos da Doutrina Cristã, em Dreux, 1897-1898).

Voltando em 1898 para Fortaleza, trabalhou algum tempo na casa comercial do pai, deixando-a para fazer os preparatórios no Liceu do Ceará. Em 1902 embarcou para o Rio com o propósito de estudar Direito. Interrompeu, porém, o curso e durante o ano de 1904 foi professor de Latim no Liceu do Ceará. No ano seguinte veio trabalhar no Ministério das Relações Exteriores. 1906 casou-se com D. Gabriela da Rocha, filha do Coronel Manuel Antônio da Rocha e de D. Rosa Bandeira da Rocha. Cinco filhos teve do matrimônio: José Maria e Teófilo, mortos na infância, Maria José, Maria Justina e Ângelo.

Em 1908 foi o poeta transferido para o nosso consulado geral em Londres, onde serviu até 1912. Nesse ano abandonou o emprego público e viajou pela Europa (Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Hungria, Suíça, Itália, Romênia, Turquia), pela Ásia (Turquia, Palestina) e pela África (Egito), regressando a Londres em 1913.

Adoecendo gravemente em 1914, veio para o Brasil e após três anos de tratamento recuperou a razão abalada. Partiu então do Estado natal para o Rio (1917) e no ano seguinte para Paris, falecendo cinco anos mais tarde, a 11 de julho, em Montauban (Haute Garonne).

Por esses breves dados biográficos, que me foram fornecidos por Ildefonso Albano, irmão do poeta, vê-se que José Albano recebeu sólida educação humanística. Tinha excepcional facilidade para as línguas: era forte no latim e no grego, falava corrente e corretamente o francês, o inglês, o alemão, o italiano e o espanhol, conhecia ainda o holandês, o provençal, o catalão, o galego… Com ser tão versado em idiomas estrangeiros, prezava como ninguém a pureza do vernáculo. Pode-se dizer que a língua portuguesa foi a grande paixão de sua vida. Indignava-se contra os que via encobrindo-a de “ornamentos estranhos”. Queria-a

naquela singeleza primitiva,
naquela verdadeira formosura
que farei que no verso meu reviva.

Fê-la de fato reviver, com todas as graças e castidade quinhentistas, e um tal acento de ingenuidade, que, ao lê-lo, não temos a menor sensação de pastiche, e é como se estivéssemos diante de um autêntico homem do grande século português. “Era um antigo”, disse dele Graça Aranha, “e desprezava a vida moderna. A sua arte inspirava-se nas raízes do espírito oriental mediterrâneo”.

*

Mário de Alencar, que durante anos privou com ele quotidianamente, assim o descreve: “Barbas densas e grandes de rabi, cenho repuxado pelo monóculo retangular, olhos incisivos que olhavam um pouco de alto e de esguelha, davam-lhe do rosto, viril e bem afeiçoado, uma expressão antipática; o molde da roupa, o chapéu luso e desabado, o andar, as maneiras, completavam a estranheza da figura, que a muitos parecia excêntrica. Conversado, sentia-se-lhe o orgulho, gerado por desdém e descontentamento dos homens e das coisas, do meio e do tempo. Criticava a todos e a tudo, mas sem inveja, sem vaidade, apenas porque todos e tudo não lhe respondiam ao gosto e ao ideal. A sua sensibilidade chocava-se com a natureza brasileira: e aborrecia-lhe o presente por falta de perspectiva”.

O retrato está exato. Assim vi eu o poeta umas duas vezes, na Livraria Garnier, de sobrecasaca preta, de uma feita retrucando sem cerimônia a João Ribeiro — a João Ribeiro! —, seu amigo e grande admirador: “Não diga asneiras, João Ribeiro! Não diga asneiras!” O que me deixou estarrecido.

*

Dos últimos anos da vida do poeta em Paris nos fala comovidamente Luís Aníbal Falcão em seu livro Do meu alforje: “Vestindo sempre um terno de veludo marrom, que me dizia ser a última moda de Londres, não dispensava as luvas, que de tão gastas mostravam todas as pontas dos dedos, nem a bengala curva, de falso junco. Um chapéu machucado e já com mais de um furo cobria-lhe a basta cabeleira. O rosto cheio, de linhas puras e finas, de nariz estreito e reto, tinha a sua palidez quase transparente realçada pela larga barba castanha. Assim, na sua majestade inata, na sua beleza desdenhosa, José Albano relembrava algum rei assírio, poderoso e displicente”.

Vivia o poeta ali, manso extravagante, da mesada que lhe enviava a família. Certa noite foi surpreendido por Graça Aranha num dos restaurantes mais caros da Rue Royale, sozinho a uma mesa, diante de uma garrafa de champanhe. À suspeita de uma censura, que aliás não lhe foi formulada, exclamou jovialmente:

— É apenas champanhe. Mas se vivêssemos numa sociedade bem-organizada, nós poetas teríamos direito ao néctar!

Com Luís Aníbal Falcão ficava horas esquecidas rememorando “as suas viagens, piedosas peregrinações aos sítios mais ilustres: a Grécia, e Troia, onde fora reler a Ilíada, e Weimar, onde evocara Goethe, a velha Costela, onde refizera o itinerário de Dom Quixote, indo procurar, na obscura aldeia de Toboso, a casa da tão amada Dulcineia”.

*

Ocupava-o então a ideia de publicar por subscrição um volume de luxo em que reeditasse as suas obras esgotadas. Não lhe permitiram as circunstâncias pô-la jamais em efeito. Só hoje [1948], vinte e cinco anos depois de sua morte, se vai cumprir aquele seu desejo.

Confiou-me a família de José Albano o honroso e grato mister de preparar esta edição. O material que me foi entregue compunha-se do seguinte: as edições anteriores, feitas em vida do poeta, a saber, Rimas de José Albano — Redondilhas, Oficinas de Fidel Giró, Barcelona 1912, Rimas de José Albano — Alegoria, Oficinas de Fidel Giró, Barcelona 1912, Rimas de José Albano — Canção a Camões e Ode à Língua Portuguesa, Oficinas de Fidel Giró, Barcelona 1912, Sonnets by Joseph Albano with Portuguese prose-translation, Ex Typografia Hodierna Fortalexiæ 1918, Comédia Angélica de José Albano, Tipografia Moderna, Fortaleza 1918, Antologia Poética de José Albano, Ex Typis Assis Bezerra Fortalexiæ 1918; em cópias datilografadas: várias poesias em alemão e uma em português, escritas nos anos de 1895-1897, muitas poesias em português, escritas entre 1900 e 1902, e certo número de sonetos, entre os quais os dez preferidos pelo autor.

*

O valor poético de José Albano era conhecido e foi calorosamente louvado por alguns raros espíritos que tiveram a fortuna de com ele privar: João Ribeiro, Graça Aranha, Tristão da Cunha, Mário de Alencar, Antônio Sales, o Barão de Studart, todos já falecidos. Entre os vivos, contam-se pelos dedos os que lhe conhecem os versos e sobre eles escreveram: Américo Facó, Da Costa e Silva, Múcio Leão, Sílvio Júlio, Luís Aníbal Falcão. Para a generalidade dos seus contemporâneos o poeta admirável da “Ode à Língua Portuguesa” era apenas um excêntrico que fazia versos e os publicava em “plaquettes” requintadas que hoje são raridades bibliográficas. O grande público sempre o ignorou. Para as novas gerações José Albano é apenas um nome.

Assim sendo, pareceu-me que, no momento, editar sem escolha a sua obra completa seria desservir-lhe a memória. Havia que apresentá-lo primeiro no que ele deixou de melhor — os poemas que fez imprimir em vida, os dez sonetos de sua predileção — acrescentando-lhes algumas produções que, a meu juízo, merecem ser incorporadas desde já ao inestimável pecúlio de uma poesia tão rica de sentimento, tão bela e tão pura de forma.

Link para download do livro Rimas, de José Albano:

https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/7073