[Federico Cenci trabalhou de 2013 a 2017 na agência de notícias católica Zenit, lidando com questões sociais e religiosas, bioética, políticas familiares, bem como política nacional e internacional. Em seguida, continuou a sua atividade na In Terris, e atualmente em vários jornais e periódicos. Em 2020 escreveu o romance Berlim Oriental 2.0 – Notas sobre distopia e realidade.].

Em 1997 foi lançado Bem-vindo a Gattaca, um filme de ficção científica futurista em que seria possível dar à luz seres humanos com um patrimônio genético específico, selecionados pelos pais a partir de um determinado grupo de células embrionárias. Bem, esse futuro já parece ser agora…

O TESTE POLIGÊNICO. Uma investigação da Bloomberg revela a existência de ensaios clínicos de seleção de genes em embriões humanos para reduzir o risco de doenças cardíacas, diabetes e câncer, na idade adulta. Isso é chamado de “teste poligênico”. Empresas que oferecem este “serviço” a casais que desejam ter filhos conforme seus desejos podem ser encontradas no site Genomic Prediction. Rafal Smigrodzki, um neurologista da Carolina do Norte, com doutorado em genética humana, é um dos pais que utilizaram os serviços dessas clínicas. Ele disse à Bloomberg que os pais têm o dever de dar a seus filhos o melhor começo de vida possível. “Parte desse dever é garantir a prevenção de doenças; é por isso que damos vacinas”, disse ele. “E o teste poligênico não é diferente. É outra maneira de prevenir doenças.”

A ILUSÃO DA “CRIANÇA SAUDÁVEL”. É uma forma de prevenir doenças, porém, com resultados que não são totalmente óbvios. Como a Bloomberg também relata em sua edição de julho, de acordo com o New England Journal of Medicine, treze cientistas deram o alarme sobre o assunto: o risco é que os clientes, ou seja, os pais, se deixem seduzir pela miragem de ter uma “criança 100 % saudável”. Mas, conforme observam os cientistas, “os resultados” do teste poligênico “são apenas possibilidades, não garantias”.

O “FILHO PERFEITO”. Mas, além da prevenção de doenças, um número crescente de pais também está recorrendo a essas clínicas para “fazer” uma criança com uma certa aparência física e fortes qualidades intelectuais. Smigrodzki, o pai entrevistado pela Bloomberg, não faz segredo disso: “É certo e apropriado que toda criança seja inteligente, que toda criança esteja acima da média”, diz ele.

O RISCO DO “EUGENIA LIBERAL”. No entanto, a perspectiva de seleção fundada na inteligência suscita preocupações compreensíveis. Steven Hyman, diretor do Centro Stanley de Pesquisa Psiquiátrica do Broad Institute do MIT e Harvard, fala de uma eugenia mais sutil do que a eugenia nazista: uma “eugenia liberal”. Para Hyman, portanto, é necessário estabelecer limites éticos desde o início, antes que se concretize o princípio discriminatório do “pequeno número de perfeitos”.

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