Uma coisa que costuma causar espanto, quando se toma conhecimento dela sem estar de espírito devidamente preparado para recebê-las, é que a Igreja não permite a todos a leitura da Bíblia. Como! exclama, vitorioso, o antimetafísico, as próprias sagradas escrituras! Nada menos que a história da criação e dos primeiros tempos da humanidade, desde os dias paradisíacos! E a própria Igreja veda aos devotos sua leitura, limitando-a ao Novo Testamento. Eis o que, à primeira vista, parece, realmente, absurdo. Mas, é que a Igreja tinha, já, a clara noção da verdadeira “impropriedade”, cuja causa reside muito menos na obra rotulada como imprópria, do que em certas categorias de leitores. A Igreja proclamou sempre que é preciso “saber” ler a Bíblia. Quem se aventurar à leitura do Antigo Testamento sem o amadurecimento necessário, arrisca-se aos mais desconcertantes extravios.

Assim, a sabedoria canônica julgou preferível não considerar os livros, embora sagrados, próprios para ser colocados em todas as mãos. É ponto de vista exclusivamente católico — todos o sabem. A reforma o tomou como um dos seus temas de divergência doutrinária. Lê e faz ler os livros, acompanhada, entretanto, a leitura da indispensável exegese.

Não é a nós, evidentemente, que cabe discutir a matéria, do ponto de vista da doutrina religiosa. Apenas recorremos a esse admirável exemplo de lucidez, para sustentar, ainda uma vez, uma velha tese, já defendida em prefácio escrito para a 1ª edição do texto da vetadíssima peça Álbum de Família, de Nelson Rodrigues: a tese da impropriedade… do público. É exatamente essa tese que o procedimento da Igreja, em relação à leitura da Bíblia, consagra e confirma. E não nos lembrou mencionar esse argumento, no aludido prefácio. Entretanto, é evidente que ao proibir, em princípio, a leitura da Bíblia, por qualquer um indiscriminadamente, não é sobre a própria Bíblia que incide a condenação da Igreja, e sim sobre certas categorias de seus leitores eventuais.

Seria a Bíblia, no Antigo Testamento, um livro mau, nocivo, capaz de perverter o espírito bem formado dos crentes? Podia-se admitir que outros o dissessem — menos a Igreja. O que a proibição eclesiástica proclama é um voto de desconfiança ao leitor, e não ao livro. O leitor ignora que, mesmo dos livros sagrados, pode-se extrair uma lição perversa, de maior ou menor repercussão e inconveniência. A Igreja tem por indispensável, para a leitura da Bíblia, o prévio aprendizado da sua interpretação.

Este ponto de doutrina católica põe ainda em evidência a importância da contribuição do leitor ao conteúdo e significado de uma obra. Os mesmos livros não significam rigorosamente a mesma coisa para todos os leitores — e é o que explica os processos de revisão de valores, tão frequentes nos trabalhos de história e de crítica literária ou; mais ainda, na diversidade de julgamento de um autor e sua obra, por sucessivas gerações, que ora renegam os mestres da véspera, ora descobrem ou redescobrem velhos valores desprezados ou esquecidos. É o que explica, também, a diversidade de interpretações de muitas obras, ainda que nada tenham de hermético e de obscuro. Acontece que cada leitor contribui para o alcance e o sentido da obra com o que lhe dá de si próprio e, na verdade, no mesmo livro não é a mesma coisa que todos leem.

O que sucede no caso do livro, por maioria de razões, sucederá no do espetáculo. A reação das plateias varia, de apresentação a apresentação. Não há ator que não tenha experiência do fenômeno, que é objeto cotidiano de comentário, nos bastidores e nas coxias. O ator que sai de cena costuma avisar aos que ainda não entraram para o banho lustral da comunicação com o público: “A plateia, hoje, está (ou não está) boa”. Ele o percebe pela reação às réplicas ou atitudes “de efeito” (nem todas o são, por necessidade mesma da construção dramática). As plateias variam “antes” dos atores. Mas, é certo que, sob a influência da disposição de ânimo do público, os atores também variam.

O Estado de São Paulo — 13.11.1969