[O neuropsiquiatra Alfred Döblin é um dos mais importantes escritores de língua alemã do século XX, junto com Hermann Broch, Robert Musil, Thomas Mann, Ernst Jünger, Hermann Hesse, Jacob Wassermann e Kafka. Seu romance Berlin Alexanderplatz, publicado em 1929, quando ele ainda era socialista e ateu, é um clássico indiscutível da literatura moderna. O texto a seguir é uma resenha de seu livro de memórias Voyage et destin, publicado na França em 2002, em que o escritor, de origem judaica, relata sua fuga, em 1933, da Alemanha para a Suíça e depois França, para escapar da fúria de Hitler, para onde foi com a mulher e os quatro filhos. No entanto, a própria França seria ocupada pelos nazistas e a família Döblin se dispersaria (o filho mais velho do escritor, servindo no exército francês, suicidou-se aos 25 anos, em 1940, depois de brilhante formação acadêmica em matemática). É nessa situação de grande sofrimento que Döblin vai encontrar o Cristo].

Berlin Alexanderplatz, romance que narra a miséria berlinense da década de 1920, teve a triste honra de ser uma das obras lançadas à fogueira pelo regime nazista, em 1933. Foi nessa data que seu autor Alfred Döblin, de fé judaica, partiu com sua esposa e filho na direção da França. Ele obteve sua nacionalidade em 1936 e trabalhou no Ministério da Propaganda quando a guerra estourou.

Em junho de 1940, ele fugiu de Paris em direção ao sul, em busca de sua esposa, que havia partido alguns dias antes com seu filho mais novo. Foi durante essa busca, na angústia e na solidão, que Alfred Döblin se converteu ao catolicismo.

Sua viagem, em busca da esposa e filho, leva-o a Tours, Moulins, Vichy, Clermont-Ferrand, Arvant, Capdenac, Cahors, Rodez, Sévérac, Mende, le Puy, Béziers e, finalmente, Toulouse, onde acontece o reencontro. Em Cahors, teve de se livrar de um manuscrito excessivamente pesado, cujos protagonistas eram os jesuítas, que considerou a posteriori um sinal, porque eram os sacerdotes da Companhia de Jesus que lhe dariam o primeiro dos sacramentos (o batismo aconteceria no exílio de Los Angeles, em novembro de 1941).

Mas o grande evento acontece na catedral de Mende, ainda na França, na frente de um crucifixo. Desde que entrou mecanicamente no edifício, ele permanece congelado à frente do Cristo numa cruz. “Disse a mim mesmo: esta é a miséria humana, o nosso destino; este objeto faz parte da nossa existência, é o seu verdadeiro símbolo”. Mas, por ora, ele não percebe que esse homem também é uma pessoa divina: “Ele é Deus? Esta é a única pergunta que faço.” Ele pensa em ir procurar um padre, hesita, e depois se retrai.

Os dias passam na solidão e Döblin repensa sua vida: seus primeiros “deuses” foram os românticos alemães, depois Nietzsche. Ele nunca realmente tinha vivido seu judaísmo intimamente. Tido por ateu, no entanto sempre sentiu “que o único gesto humano perante os segredos da vida é cair de joelhos”. Ele retorna à catedral de Mende. Obcecado pelo crucifixo, ele medita sobre a Paixão, venera o Cristo, mas ainda se recusa a admitir a sua divindade.

A terceira entrada na catedral foi num domingo. Depois de ter meditado sobre o Pai-Nosso, é dominado, durante a missa, pelo Dies Irae. Mas a homilia o decepciona, não o atinge. Lá fora, ele se questiona sobre a existência do universo invisível e acaso. E vai gradualmente acolhendo a ideia do sobrenatural.

No domingo seguinte, na missa, sempre o crucifixo ocupando o seu campo de visão. Sempre, também, essas hesitações sobre a natureza divina de Jesus… Mas a figura do Crucificado continua crescendo em sua mente. A conversão parece estar definitivamente em andamento, como estas belas linhas testificam: “Experimentamos o mundo enquanto pessoas humanas. E quando apelamos à verdade, confessamos, baixando a cabeça silenciosamente e com profunda reverência: Deus… E, levantando a cabeça: Jesus.”

Um mês se passou desde que deixou Paris. Ele encontra sua esposa e filho em Toulouse em 10 de julho. Um dia, quando entra em uma igreja na Cidade Rosa com sua esposa, a fé em Jesus definitivamente vence: “Agora há uma intimidade entre o crucifixo… e eu. Existe um segredo entre nós.” Mas, por enquanto, ele não ousa dar o passo seguinte. Admite estar com medo: “Seria preciso que alguém viesse e me tomasse pelo braço, arrastando-me”. No entanto, Cristo agora vive com ele. Ao cruzar a fronteira espanhola com uma facilidade desconcertante, e depois de muitas dificuldades, Döblin admite: “Não queria saber nada sobre Ele, mas Ele não me perdia de vista. Ele não me largava. Desta vez, Ele não estava mais acenando: Ele estava intervindo.”

Em Lisboa, a caminho dos Estados Unidos, o escritor continua inquieto com o problema de Deus, mas a sua existência deixa-o com cada vez menos dúvidas: “Quem é Deus e quais são as suas intenções para conosco? ” Chegado ao novo continente, a sua conversão parecia-lhe tanto mais óbvia: ao voltar a pôr a mão no manuscrito [romance sobre as missões jesuíticas no Paraguai], percebeu que se tratava sempre de… Jesus! Não há mais dúvidas para ele: seu livro foi uma antecipação de seu próprio debate interno. E um sinal, pois em Los Angeles são os jesuítas que ele vai encontrar “por acaso”, e que vão ensinar o catecismo a si próprio e à sua mulher (que também se converterá). Seus filhos receberão educação cristã.

É preciso ler o final de seu livro de memórias Viagem e Destino e o relato do período de conversão. A parte dedicada à meditação ocupa as últimas páginas, quando se ocupa de Adão e Jesus, a Criação, os mundos invisíveis, a força e a sabedoria da Igreja Católica… Alfred Döblin descobre, com alegria e maravilha, as festas católicas, em particular o Natal: “Um fato extraordinário, inimaginável: Deus vindo ao mundo!”

https://fr.aleteia.org/2017/05/28/les-grands-convertis-de-la-litterature-alfred-doblin/