Antes que os quintais acabem, falemos das virtudes do quintal. Falemos em primeiro lugar da rosa, obra-prima de Deus. Vem-me logo à lembrança a pequena fábula contada pelo ateu Nikos Kazantzakis, primor de soberba e exagerada autoconfiança, em que a Urtiga chega para dona Roseira e pergunta: “Dona Roseira, como é que a senhora consegue fabricar uma rosa tão bonita?” A Roseira responde: “É que eu fico o dia inteiro, a noite inteira, a vida inteira só pensando numa coisa: na rosa.”

Pobres de nós! Se a graça divina não me ajudar, como posso ter certeza de que terminarei esta pobre crônica?

Mas sigamos pelo quintal. Falemos da abelha e do beija-flor. Dos canteiros, das nuvens, da lua (que é mais do quintal do que do céu). Falemos do céu e das árvores, dos pássaros e da brisa circular.

Roupa verde do muro — e de crochê — vai a hera andeja com suas garras sutis (se deixar, sai do quintal e dá volta ao mundo). Antigamente, o muro era de barro, tinha formigas pretas e pacíficas que gostavam de circular pelas crianças, nas tardes distantes da rua Germano Moreira.

Algumas vezes, chove no quintal. E então o quintal fica sozinho, ensimesmado, quieto, chorando gotas inconsoláveis do pé de jatobá. As árvores não sabem se esconder nas árvores, como os filhos se escondem nas mães e os corguinhos nos bosques. Elas permanecem imóveis e estóicas como bois no pasto.

Mas logo passa a chuva e volta o sol, botando manchas de luz no chão das árvores — sol vazando móvel e trêmulo das folhas para brincar com as sombras do quintal. Tem mais sol do que chuva no quintal. O sol é o presidente do quintal.

Nem as estrelas nem os passarinhos pedem licença para entrar aqui: o quintal é lugar deles. Tive três visitas num só dia: um sanhaço, um sabiá e um bentererê, que só conhecia do álbum e do disco do ornitólogo Dalgas Frisch. Espiavam-me distantes da goiabeira, com os pequenos olhos cheios de prudência; e com inteira razão. À maneira de São Francisco, falei para um desses leves donos do ar, um sabiá-laranjeira:

— Todo cuidado com a gente é pouco, irmão sabiá. Não chega tão perto assim…

Ele respondeu na flauta:

— Que jeito continuar no mato? Encheram tudo de canaviais.

 — Mas de qualquer modo, cuidado. Sobretudo comigo: tenho uma gaiola vazia na dispensa…

Ele me olhou com desprezo e bateu as asas, sumindo por aí.