Sempre houve compositores, clássicos ou populares, cuja vida inconformada foi um notório desastre do ponto de vista moral: dissiparam-se no “bas-fond” da boemia, entre bebidas e drogas, jogos e mulheres (quando não em vícios sexuais menos confessáveis). Outros houve, também, de existência mais reclusa, mas sem se distinguirem particularmente pela vida virtuosa. No entanto, é inegável a excelência e, muitas vezes, a profundidade de muitas obras criadas por gente assim.

Escutamos as coisas bonitas que eles compuseram e, inevitavelmente, fazemos algumas perguntas: de onde veio toda essa beleza? Pode sair coisa boa dos abismos mais sombrios? Se pelo frutos é que se conhecem as árvores, é possível que o belo presente nessa sinfonia, nesse quarteto ou nessa canção revelassem que nem tudo andava perdido naquelas almas. Seriam, tais obras, produto da parte saudável de homens perturbados que, não se sabe por que razão, tinham optado pela catástrofe existencial? Ou é possível manter paralelos esses dois caminhos, o do bem e o do belo, sem que nunca se cruzem?

Uma hipótese é a de que suas obras “saudáveis” resultassem do que neles restava do “instinto” religioso, nato no ser humano: era a única maneira de se aproximarem de algo mais transcendente, mesmo se, em seu ceticismo, já não mais conseguissem lidar com a ideia de Deus, tendo perdida a velha fé nalguma curva distante da infância ou da adolescência.

Seja o que for que se esconda por trás desse mistério, a beleza dessas plantas geradas no charco será, inequivocamente, um sinal de que a graça divina não os tinha abandonado. Nada pode ser mais divino do que o belo, mesmo se associado aqui e ali ao mal (este, sim, sinal da completa ausência e negação de Deus, jamais produto Seu, como querem alguns gnósticos).

Santo Agostinho disse que os que cantam, rezam duas vezes. Referia-se, obviamente, ao canto religioso e à intensidade emocional que a prece adquire quando revestida de alguma melodia piedosa. Daquelas bem-sucedidas realizações musicais, de inspiração profana e saindo da alma de grandes pecadores, certamente não se dirá que sejam orações no senso estrito da palavra, mas em sentido amplo. De algum modo são orações de louvor, com inegável aspecto de oferenda, cujos autores, mesmo pessoalmente distantes das coisas divinas, a elas indiretamente se referem em suas peças, que trazem uma misteriosa síntese de rigor numérico e expressão emotiva: metáfora perfeita de Deus.

Uma bela peça instrumental, mesmo que seja outra a intenção do compositor, não deixa de ser uma forma, ainda que indireta, de louvor ao Deus que, na criação, tudo dispôs com medida, quantidade e peso (Sabedoria, 11, 20), verdade também percebida já no mundo pagão, quando no início do pensamento grego Pitágoras falava em harmonia das esferas, em referência à ordem cósmica.

Essa ordem é um dos sinais mais eloquentes da existência de Deus. A linguagem musical também não faz outra coisa que ordenar o mundo informe dos sons, imprimindo-lhes a justa medida, o devido peso, o adequado andamento. É uma maneira privilegiada da criatura comunicar-se com o Criador, valendo-se da linguagem que Ele mais aprecia: a da ordem permanentemente em luta contra o caos.

Em tantos momentos de suas vidas, ainda que indireta e inconscientemente, aqueles “malditos” louvaram o Criador com a beleza e o rigor de sua arte, fato que certamente não deve ser desprezível aos olhos de Deus, que saberá o que fazer, da forma mais justa possível, com suas almas.

Exemplo dessa misericórdia foi o que aconteceu com o pianista e compositor polonês Frederic Chopin. Em Paris, para onde foi muito jovem, logo perdeu a fé cristã que tinha trazido da Polónia natal. Aos 39 anos, tuberculoso, um conterrâneo que vivia na França, Padre Jelowicki, conseguiu sua conversão nos últimos momentos de tão curta vida, depois da relutância inicial do compositor.

Chopin, e tantos outros como ele, foram almas perturbadas que procuraram o inferno ao mesmo tempo que eram atraídas pelo Paraíso. Nem todos terão amigos sacerdotes, como Chopin, com a chance de saírem do mundo em plena comunhão com a Igreja. Mas esse já é um assunto exclusivo de cada alma com o Deus justo e misericordioso que a criou.