Demorou, mas enfim a revista liberal The Economist, em sua edição de 4 de setembro, denunciou o perigo de uma extrema-esquerda iliberal que está assumindo posições tirânicas em todo o Ocidente. Prova disto foi a entrevista com Judith Butler, no The Guardian, em 7 de setembro, na qual todos aqueles que se opõem aos dogmas da ideologia de gênero são rotulados de “fascistas”. Prova-o também a Resolução do Parlamento Europeu (de 16 de setembro) em que se pede à Comissão que caracterize como crimes não só a violência contra as mulheres, mas também “todas as formas de violência e discriminação relacionada com gênero, seja contra mulheres, jovens e pessoas Lgbtiq”.

The Economist escreve, no início de seu artigo: “Alguma coisa de muito errado aconteceu com o liberalismo ocidental. Em seu cerne, o liberalismo clássico acreditava que o progresso humano é impulsionado pelo debate e pela reforma. A melhor maneira de navegar por mudanças disruptivas, em um mundo dividido, é por meio de um compromisso universal com a dignidade individual, liberdade de mercado e formas limitadas de governo”. Há seis anos, foi a revista Atlantic que denunciou veementemente os movimentos da esquerda iliberal e politicamente correta, cujos membros mais radicais “tentam regular o discurso político, definindo todo pensamento contrário como intolerante e ilegítimo”.

The Economist traça uma longa lista de como e quanto aumentou a intolerância da esquerda, que vai das acusações de fanatismo à cultura de cancelamento, passando pela decapitação e remoção de estátuas de figuras históricas nacionais. A esquerda abandonou os problemas sociais e as suas tradicionais batalhas (trabalhadores, justiça social, pobreza etc.), substituindo-os pela imposição, sobre toda a sociedade, de interesses e reivindicações de certos grupos relacionados com gênero, raça e preferências sexuais. Exprimem o desejo de um poder absoluto que permita realizar, por todos os meios possíveis, aquela sociedade ideal onde os privilégios de uns poucos grupos seriam representativos de um (mal compreendido) “bem comum”, mesmo quando em detrimento da liberdade pessoal e da vontade da comunidade nacional. Todo método seria legítimo para impor tal nova igualdade, que priva os adversários de toda liberdade (censurando seus argumentos), sejam eles indivíduos, grupos ou inteiras comunidades nacionais.

O pelourinho público e a consequente exclusão do convívio social são apenas alguns dos instrumentos adotados. The Economist lembra bem, com Milton Friedman, que a “sociedade que coloca a igualdade antes da liberdade não terá nenhuma das duas”. Nós acrescentamos que sem verdade não há liberdade que se mantenha, nem existe uma igualdade real sem a consciência de uma paternidade comum (graças a um Outro). Os efeitos produzidos pela esquerda iliberal, fortemente devedora do pensamento marxista e do pragmatismo gramsciano, já estavam todos presentes no debate jurídico internacional da virada do século e destacados por Mary Ann Glendon (e outras autoridades no assunto), no volume O tráfico dos direitos insaciáveis (edições Rubbettino).

The Economist erra ao imaginar uma semelhança entre os populistas de direita e a esquerda iliberal: a guilhotina da censura pertence apenas aos grupos de esquerda contemporâneos, que vivem de  imitar Robespierre, porém jamais àqueles que defendem a dignidade humana, as verdades históricas e as liberdades sociais e econômicas. Dói o silêncio do The Economist sobre a perturbadora aliança entre a esquerda e muitos dos atuais plutocratas globais, envolvendo praticamente todas as grandes e multimilionárias fundações filantrópicas.

Mas vejamos o The Guardian, que nos últimos dias, como mencionado, entrevistou a principal ideóloga de gênero, Judith Butler, sobre o tema “feminilidade e mulheres”. Na entrevista, entre inúmeras amenidades, o senhor Butler (a filósofa prefere ser tratada no masculino) acusou as mulheres que defendem a realidade do sexo biológico de serem fascistas, “anti-intelectuais” e “Terf” (“trans-exclusionary radical feminist”), que é um insulto dirigido às mulheres que dizem que não é possível um homem se transformar em mulher.

Segundo Butler, o gênero “é uma atribuição que não acontece apenas uma vez: é algo em curso”; e, portanto, ao mesmo tempo que “se impõe ao nascer”, pode evoluir ao longo do caminho da vida. Daí a obrigação dos outros de usar o pronome de tratamento desejado pelas pessoas em cada momento de suas vidas, e o direito de, através da educação, libertar as gerações mais novas, punindo ou marginalizando os dissidentes (famílias, intelectuais, políticos, grupos sociais, igrejas). Aqueles que se opõem a essa teoria maluca de gênero são “antifeministas, homofóbicos e transfóbicos (…) a ideologia anti-gênero é uma das tendências dominantes do fascismo de nossos tempos”.

Pois bem: poucas horas depois da publicação online do artigo, o jornal eliminou alguns dos comentários mais incivis de Butler — devido ao protesto de muitos leitores —, entre os quais esta confirmação da iliberalidade da esquerda: “O movimento anti-gênero faz circular o espectro de ‘gênero’ como uma força destrutiva (…) devemos fazer mais esforços para alcançar um público mais amplo”.

Pode-se dizer que os eurodeputados deram ouvidos à Butler e aprovaram, no dia 16 de Setembro, poucas horas depois do discurso de Ursula von der Leyen sobre a situação da União Europeia, uma resolução em que se pede à Comissão que reconheça a “violência de gênero como uma nova esfera da criminalidade”, entre as enumeradas no artigo 83.º, n.º 1, do TFUE (Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia). Na prática, pede-se identificar e combater em toda a UE a nova e presumida esfera de criminalidade contra pessoas LGBT, tais como os estereótipos de gênero (masculino e feminino) etc.

Chesterton já nos tinha avisado: “A grande marcha da destruição intelectual continuará. Tudo será negado”.

https://lanuovabq.it/it/sinistra-illiberale-se-ne-accorto-pure-leconomist