[Mensagem que um jovem padre italiano, Bruno De Cristofaro, dirigiu a jovens por ocasião do início do ano letivo 2021/2022].

“Assim implorei e a inteligência me foi dada, supliquei e o espírito da sabedoria veio a mim. Eu a preferi aos cetros e tronos, e avaliei a riqueza como um nada ao lado da sabedoria. Não comparei a ela a pedra preciosa, porque todo o ouro ao lado dela é apenas um pouco de areia, e porque a prata diante dela será tida como lama. Eu a amei mais do que a saúde e a beleza, e gozei dela mais do que da claridade do sol, porque a claridade que dela emana jamais se extingue. Com ela me vieram todos os bens, e nas suas mãos inumeráveis riquezas. De todos esses bens eu me alegrei, porque é a sabedoria que os guia, mas ignorava que ela fosse sua mãe. Eu estudei lealmente e reparto sem inveja e não escondo a riqueza que ela encerra, porque ela é para os homens um tesouro inesgotável; e os que a adquirem preparam-se para se tornar amigos de Deus”. (Sabedoria, 7, 7-14)

Começam as aulas. E começam em pé de guerra. Porque a educação — sempre tenho dito — é um corpo a corpo. Uma luta que se dirige sobretudo a si mesmo: pois educar, “ex-ducere”, é “conduzir para fora”: fora da estreiteza mental e moral à qual ficamos todos muito acostumados, devido à ausência de mentores autênticos.

Mas para a maioria de vocês, vítimas involuntárias da educação pública, o bom combate também envolverá a resistência heróica contra a atmosfera asfixiada das ideologias. O Santo Padre falou, recentemente, de um sonho: o de uma Europa finalmente livre delas. Mas isto deve começar nos bancos escolares, sabiam? Pois as ideologias, se não se aprende a reconhecê-las e desmantelá-las hoje, enquanto são manipuladas pelas cátedras, em vez de num sonho vocês acordarão amanhã em um novo pesadelo. E vocês vão viver isso junto com suas famílias, com seus filhos.

A origem das ideologias, ainda mais do que na negação de nossas raízes cristãs (já um suicídio para a Europa contemporânea), se encontra no cancelamento das duas maiores conquistas da filosofia grega. Na verdade, hoje, contra qualquer ordem cronológica (que o progresso intelectual não é previsível como o técnico), vivemos uma era pré-socrática e pré-aristotélica. E vou explicar por quê.

Sócrates legou à humanidade o bem inestimável da HONESTIDADE INTELECTUAL. Qualidade que os sofistas — antes dele — ignoravam completamente. Na verdade, eles entendiam a filosofia como mera retórica capaz de convencer os ouvintes com qualquer estratagema verbal, mesmo mentiroso. Sócrates deslocou o interesse do filósofo das opiniões para a verdade: essa não é algo que se impõe a partir dos próprios e satisfeitos pensamentos, mas só pode ser atingida a partir da humilde ignorância. A partir desse momento, a tarefa do filósofo é dedicar-se a uma busca sincera e heroica da verdade, ainda que à custa de sua vida.

O maior presente de Aristóteles à posteridade foi, por outro lado, o RIGOR INTELECTUAL. Para chegar à verdade, não basta a reta intenção, que é necessária, mas insuficiente. Se o filósofo não observa escrupulosamente as regras da lógica, não chega a uma “cognitio certa” das coisas e, portanto, suas conclusões não têm valor científico universal. “Científico” aqui significa “certo” e “universal” significa “compreensível por todos”.

Bernardo de Chartres, filósofo medieval, dizia a seus alunos que “apenas se apoiando nos ombros de gigantes (como os antigos filósofos) eles poderiam enxergar mais longe de si mesmos”. Por sua vez, o homem contemporâneo — acreditando que ele mesmo poderia fazer isto — saltou daqueles apoios seguros, daqueles privilegiados postos de vigia. E enquanto ele ainda chora pelos ossos que quebrou ao cair, ele cospe sua raiva furiosa em qualquer coisa real que vê em seu caminho, caso não corresponda a seus desejos e ânsias.

Se vocês querem ter uma amostra sobre como Sócrates e Aristóteles foram traídos e eliminados pela cultura contemporânea, observe o peso de qualquer artista pop na determinação da chamada opinião pública, [cujas] lectiones magistrales coincidem perfeitamente com o que vocês tem ouvido de governantes e jornalistas e, digamos com franqueza, até da maioria de seus professores.

Os “ismos” (Nacional-Socialismo, Fascismo, Comunismo e Relativismo) nascem e crescem precisamente assim: esvaziando os jovens da capacidade de pensar (honestamente, como Sócrates ensinava; e corretamente, como Aristóteles sugeria). E tudo isto começa na escola. A pressa em “completar o programa” (zelo educacional máximo para muitos professores) alguma vez ajudou um só aluno a “aprender” primeiro e “discernir” depois?

As ideologias, que são a negação descarada e violenta do óbvio, em favor de ideias que ninguém jamais se preocupou em demonstrar logicamente, criam rapidamente raízes: as gerações mais jovens se tornam incapazes de formular (e reconhecer) argumentos sólidos. Sem honestidade e rigor intelectual, inviabiliza-se qualquer possibilidade de dissenso a respeito de alguma ideia dominante, bem como a respeito do poder que a encarna.

É preciso explicar que tipo de implicações práticas tudo isso teve de março de 2020 até hoje? Acho que não, vocês são pessoas inteligentes. Caso contrário, vocês não me teriam lido até aqui.

Pois bem, meus filhos, desejo que travem as batalhas que os esperam com dignidade e nobreza: dentro de vocês, para a conquista da virtude; e contra as ideologias pelo triunfo da verdade. No entanto, isso deve ser feito com gentileza e respeito, com uma reta consciência, para que no mesmo momento em que alguém falar mal de vocês, sejam envergonhados os que difamam a suas boas condutas em Cristo. Com efeito, já que Deus o quer, é melhor sofrer fazendo o bem do que fazendo o mal”(1 Pedro 3, 16-17).

Se a metáfora dos anões e dos gigantes for verdadeira, Sócrates e Aristóteles também são minúsculos anões diante do Logos (que eles procuravam sem saber). O Verbo que vocês, filhos de Deus, conheceram pessoalmente e que jamais os abandonará.

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