Todas as fêmeas da natureza cuidam de suas crias e querem o bem delas, mas depois de certo momento delas se esquecem e vão cuidar de suas vidas. Com a fêmea humana não era assim (pelo menos com a fêmea humana normal). A mulher desejava, para a sua cria, sucesso nesta vida e o prêmio da vida eterna. Durante toda a vida, preocupavam-se com suas crianças e, depois de mortas, continuariam certamente rezando, no Céu ou no Purgatório, por aqueles seres que geraram e deixaram no mundo.

Mas parece que as mulheres também estão mudando. O que o atual mundo da pós-verdade está fazendo com elas? Nos distantes anos 30, início do século XX, o poeta Murilo Mendes já se preocupava com isto. Trata-se do poema “O rato e a comunidade” (Poesia liberdade. Rio, Agir, 1947, p. 109-112):

A mulher que escolhemos, a única e não outra
Dentre tantas que habitam a terra triste,
Esta mesma, frágil e indefesa, bela ou feia,
Eis o mundo que nos é de novo apresentado
Por intermédio de uma só pessoa.
Esta é a que rompe as grades do nosso coração,
Esta é a que possuímos mais pela ternura que pelo sexo.
E nada será restaurado no seu genuíno sentido
Se a mulher não retornar ao seu princípio:
É a máquina instalada dentro dela que deveremos vencer.
Quando esta mulher se tornar de novo submissa e doce,
Os homens pela mão da antiga mediadora
Abrirão outra vez um ao outro os corações que sangram.

Faixas de mulheres comemorando nas ruas, recentemente, a descriminalização do aborto no México, eram bem ilustrativas da baixa temperatura maternal de certas jovens de hoje, sobretudo as que passam pelo corredor do inferno da vida acadêmica. As faixas traziam frases do tipo: “A maternidade deve ser desejada, ou então não será”, “Eu decido: aborto legal, seguro e gratuito”, “A liberdade não pode obrigar”.

Mundo estranhíssimo este nosso, no qual o aborto deixa de ser uma “necessidade dolorosa” (pelo menos, aqui, suprimiam-se vidas com peso na consciência) para se transformar em direito de mulheres que se julgam proprietárias do próprio corpo.

Um mundo em que a liberdade de decidir sobre o próprio corpo já não deve ter limites morais, indo da mera escolha de um corte de cabelo, passando pela tatuagem permanente e chegando ao próprio “suicídio assistido”, que já é direito em países como a Bélgica.

Um mundo em que a gravidez é vista não só como um incômodo que é permitido interromper, mas sobretudo como uma doença da qual é lícito curar-se. É o que pensa a protagonista do filme O acontecimento, que acabou de ganhar o Leão de Ouro no Festival de Veneza: “Tenho aquela doença que num instante transforma a mulher em dona de casa”.

A cruel máquina de matar está sendo instalada dentro da alma feminina pela mídia, a universidade, a indústria cultural, treinando as mulheres para fazerem o contrário daquilo para o qual foram criadas.