Depois da primeira experiência em setembro de 2020, voltou este ano a feira de bebês em Paris. Aconteceu no pequeno shopping parisiense Espaço Champerret, mais exatamente num salão de “reprodução assistida” que levava o cândido nome de “Desejo de ter um filho” (em francês soa mais lírico: “Désir d’enfant”).

Estavam ali representadas algumas clínicas que lidam com fertilização in vitro, doação de óvulos, teste genético de embriões antes de implantá-los, e outras opções de fertilidade, entre as quais a mais polêmica de todas: o problema das barrigas de aluguel.

Ali, clínicas americanas, canadenses e ucranianas estiveram à espera de clientes desejosos de saber como realizar o “desejo de ter um filho” — ou até comprar um bebê, cujo embrião, depois de produzido em laboratório com toda a arte e ciência da engenharia genética, seria gestado por mulheres que decidiram alugar seus úteros e ser mães por apenas nove meses. No ano passado, uma clínica de Toronto fabricava bebês por cerca de 100.000 euros, enquanto uma clínica ucraniana fazia por bem menos: 49 mil euros em média (embota também oferecesse um pacote VIP por 59.000 euros…).

Neste 2021, a feira funcionou no sábado, dia 4, e no domingo, 5 de setembro. Ao lado de práticas aceitas pela legislação francesa, como a fertilização assistida em todas as suas variantes, as clínicas ali presentes também ofereciam atividades proibidas na França, como a locação de úteros humanos. Mesmo assim, a feira aconteceu. Uma entidade de feministas contrárias à prática apresentou, na semana passada, uma queixa à prefeita “progressista” de Paris, Anne Hidalgo (mui amiga do sr. Lula da Silva), pedindo-lhe que cancelasse o evento, mas a solicitação não obteve resposta.

As estandes das várias clínicas exibiam fotos de mulheres grávidas, casais felizes com seus bebês nos braços, alegres crianças já crescidas, enfim, retratos de famílias radiantes por haver realizado o tão sonhado sonho. O público-alvo do negócio são casais estéreis, gays e até moças solteiras que, desejando filhos, fogem do ônus de uma “ligação estável”. Os gametas masculinos e femininos podiam ser escolhidos a partir de um catálogo, com fotos dos doadores-vendedores e um banco de dados completo dos mesmos, com informações úteis, de natureza física ou psicológica, para uma escolha bem-sucedida (mais ou menos como um cardápio de restaurante “à la carte”).

Para tornar mais atraente a vitrina, os organizadores levaram este ano um jovem e feliz pai, que já tinha utilizado com sua mulher os serviços oferecidos por uma das clínicas. Pelo jeito gostou muito, ao ponto de classificar a experiência como “uma aventura mágica”, “uma viagem humanamente extraordinária”. Já era pai de dois filhos nascidos de um ventre emprestado. Garantia que ele e sua mulher já consideravam a mãe-alugada de seus filhos como “membro da família”, e provava-o, sorridente, exibindo uma foto em que apareciam todos juntos e felizes: os filhos, a esposa e a prestadora de serviços gestacionais. Sem dúvida, um jeito diferente de ser “família feliz”.

Felicidade que, potencialmente, também poderia abranger mais gente na linha de produção: imagine-se um casal que compre gametas de um homem e uma mulher que não se conheciam, e que o casal também nunca tinha visto antes (responsáveis pelas características biológicas do bebê), resultando num embrião implantado numa terceira pessoa que também ainda não tinha entrado na história (responsável pelos primeiros e possivelmente decisivos condicionamentos psicológicos durante a gravidez).

Para finalizar, imagine-se sobre a cômoda do quarto do bebê uma sorridente foto com esses cinco “genitores” (palavra que em breve substituirá as pré-históricas “pai” e “mãe”). Tantos genitores para, ao fim e ao cabo, acabar a criança nas mãos do Estado, com toda a sua vida decidida e determinada pelo “irmão mais velho”: o Big Brother orwelliano.