Dizia a professora:

— Vacinar “70% da população não foi suficiente. Assim, quando atingiram 90% de cobertura vacinal, miraram 100%. À medida que as variantes aumentavam, conforme era esperado, as vacinações sazonais continuaram nos dez anos seguintes. Quando os pacientes infectados diminuíam, ou pelo menos constituíam percentagens não alarmantes, os vírus eram introduzidos nos tubos de aquecimento, ventilação e ar-condicionado nos lugares de maior concentração humana. Mas tão-somente para eliminar os mais frágeis. Aqueles que tinham anticorpos mais poderosos sobreviveram. Realizou-se, como poderíamos dizer?, uma queima de gorduras na humanidade. Obviamente, as gloriosas forças policiais foram obrigadas a fazer uma espécie de caçada humana. Nossos ancestrais, como você bem sabe, não eram cínicos, sem coração, mas pessoas iluminadas, que se empenhavam em salvar vidas na Terra. Melhor salvar uma pequena parte do que perecer tudo. Eles sabiam que um planeta superpovoado, por mais tantos anos, destruiria todas as terras cultiváveis, o ecossistema dos mares e dos rios, eliminando as fontes fundamentais de alimentação: trigo, verduras, legumes, carnes e peixes.

— Com licença… — interrompeu uma aluna.

— Pois não! — a jovem professora sorriu, satisfeita com o interesse despertado.

—  Veja… Sabemos que nossos ancestrais usaram as gloriosas forças policiais para reduzir o número da população. Mas não teria sido mais fácil usá-los para limitar os nascimentos? É claro que teria demorado mais, porém…

A professora suspirou com um sorriso complacente:

— Sim, mas assim não teríamos… Hoje, por exemplo, já não temos mais aqueles mais de 50% de sanguessugas que sobreviviam às custas do Estado Supremo (que Deus o abençoe!).

Como um perfeito responsório, todos exclamaram em uníssono na sala de aula:

— Para sempre seja bendito!

Um estudante, de aspecto impaciente, ergueu a mão. A professora, olhando-o, assentiu. O jovem, apontando a aluna que se atrevera a propor alternativas às escolhas do Estado Supremo, com respeito sentenciou:

— Você se esquece da “purificação da humanidade”! Não percebe que os parasitas são a maior ameaça social? Inclusive aquela ralé que pensava com a própria cabeça, ousando colocar…”

Ele fez uma breve pausa, olhando para os outros colegas. E então, exibindo um sentimento de profundo desânimo, retomou com voz fraca:

— …ousando colocar a ciência acima do Estado Supremo (que Deus o abençoe!)”

E todos, novamente, em coro:

— Para sempre seja bendito!