De um lado, havia o cancioneiro popular brasileiro; e de outro, a chamada MPB. Parece que não, mas eram duas coisas diferentes. Na primeira, a gente encontrava muitas canções bonitas, escritas nos dois últimos séculos, porém a segunda era sobretudo uma ideologia, ou um complexo ideológico que, por mais que divergissem as ideias dessa ou daquela corrente, caminhava seguramente para um certo fim: igualitarismo socialista, defesa das minorias, multiculturalismo, ambientalismo panteísta.

MPB era música para formar lideranças progressistas, e por isso se dirigia preferencialmente a estudantes, que seriam os empresários, cientistas e profissionais liberais de amanhã. Restrita a rádios universitárias e estatais, ou acessível através de downloads piratas pela internet, era difícil ouvi-la nas AM e FM do povão, que gosta hoje de outras coisas (das quais nem é bom falar).

A MPB surgiu com os cançonetistas universitários da bossa-nova classe-média e se afirmou com os festivais de música engajada dos anos sessenta. Teve até direito a dissidências, como o tropicalismo, que abriu espaço para fusões com o rock e o pop internacionais.    

Canções líricas, “românticas”, continuaram a ser compostas pelos militantes da MPB, mas traziam a sua marca d’água nos arranjos jazzísticos e na interpretação quase sempre murmurante, o que as diferenciava das canções alienadas dos “outros”.

A MPB também olhava para trás. Sabia reconhecer no passado os seus precursores, sobretudo aqueles que usaram ritmos miscigenados, como o samba e o maxixe, revestindo musicalmente crônicas do cotidiano popular. Os precursores eram “relidos” e regravados dentro do novo padrão estilístico-ideológico.

A principal arma da MPB, responsável por grande parte do seu fascínio, era a associação inteligente da mensagem revolucionária com a inegável criatividade musical brasileira. Cantando e dançando belas canções (e, de fato, havia muita coisa bonita na MPB), os estudantes assimilavam, quase sem querer, o catecismo político das esquerdas.